A geografia crítica no Brasil: uma interpretação depoente*

José William Vesentini**

I.-   O advento 

Para discorrermos sobre o itinerário da geografia crítica no Brasil temos preliminarmente que definir do que estamos falando e quando esse fenômeno se iniciou.  Alguns identificam a geografia crítica, ou simplesmente geocrítica, tão somente como um discurso geográfico não mnemônico, que procura explicar ao invés de descrever. Ora, nesse sentido amplo ela existiria há muito tempo, provavelmente desde a antiguidade. No caso do Brasil, se adotarmos esse vies, teremos que admitir que ela existe aqui desde os anos 1910 (com as obras de Delgado de Carvalho) ou pelo menos desde a década de 1950 (com os estudos de Pierre Monbeig).  Entretanto, essa forma de ver é empobrecedora e até mesmo ingênua, pois estereotipa a geografia tradicional, não vê as suas diversas nuances e os seus trabalhos mais ricos e profícuos. Inúmeros geógrafos, há séculos, criticavam a memorização e enfatizavam a explicação. Essa visão empobrecedora, embora infelizmente comum, também não compreende a verdadeira reviravolta operada pela(s) geografia(s) crítica(s), que não apenas procura(m) explicar as relações sociedade/natureza  -- não confundir com a  “adaptação do Homem ao meio”, algo que a geografia tradicional algumas vezes fazia muito bem -- e as relações de poder no espaço, como principalmente busca(m) atuar no mundo, engajar-se nas lutas sociais, produzir enfim uma realidade mais justa.

Não se pode dissociar o advento da(s) geografia(s) crítica(s) da reação ou do posicionamento crítico dos geógrafos frente a dois processos ou marcos fundamentais para a história do pensamento geográfico na segunda metade do século XX: os movimentos sociais contestatórios dos anos 1960 e 1970 (contracultura, lutas civis, reação à guerra do Vietnã, movimento feminista, maio de 1968...) e a falácia da razão instrumental ou, mais especificamente (em nossa disciplina), da geografia pragmática e voltada para o planejamento. A geografia crítica, enfim, foi aquela – ou, mais propriamente, aquelas, no plural – que não apenas procurou superar tanto a geografia tradicional quanto a quantitativa, como principalmente procurou se envolver com novos sujeitos, buscou se identificar com a sociedade civil, tentou se dissociar do Estado (esse sujeito privilegiado naquelas duas modalidades anteriores de geografia!) e se engajar enquanto saber crítico – aquele que analisa, compreende, aponta as contradições e os limites, busca contribuir na ação... –  nas reivindicações dos oprimidos,  das mulheres, dos indígenas, dos negros e de todas as demais etnias subjugadas, dos excluídos, dos dominados, dos que ensejam criar algo novo, dos cidadãos em geral na (re)invenção de novos direitos.

Os primórdios da geografia crítica no Brasil enraizaram-se em dois elementos principais: a influência e os subsídios oriundos do Primeiro Mundo e em especial da França (o nosso grande farol até inícios dos anos 1980) e, notadamente, a luta contra a ditadura militar e, ao mesmo tempo, contra o projeto de capitalismo dependente e associado, contra a ideologia da Guerra Fria e os seus tristes reflexos na repressão policial, nas torturas, no cerceamento do pensamento crítico etc.  Ao contrário do que se pensa (se é que quem crê nisso pensa!), a geografia crítica no Brasil -- e também na França, segundo Yves Lacoste(1) -- não se iniciou nem se desenvolveu inicialmente nos estudos ou teses universitários. Tampouco no IBGE e muito menos nas análises ambientais ou nas de planejamento. Ela se desenvolveu, a partir em especial dos anos 1970, nas escolas de nível médio (antigo colegial), principalmente, e também nas do antigo ginasial, atual nível fundamental de 5a à 8a séries. (E também em alguns pouquíssimos cursinhos pré-vestibulares, que até inícios dos anos 70 tinham um perfil bem diferente daquele que é praticamente exclusivo hoje; ao invés de serem fábricas que apenas visam lucros e massificam os alunos,  eram em alguns casos redutos de leituras e discussões de obras críticas.  Eu mesmo tive o privilégio de discutir em seminários num cursinho, em 1969, obras como “Geografia do Subdesenvolvimento”, “Panorama do mundo atual”, “Capitalismo e subdesenvolvimento na América Latina”, “Formação do Brasil contemporâneo”, “Formação econômica do Brasil” e outras). 

A geocrítica no Brasil, portanto, se iniciou como um esfôrço por parte de alguns docentes de superar (o que não significa abandonar totalmente) a sua tradição, a sua formação universitária, aquilo que as universidades diziam que “deveria ser ensinado”. Esses professores de geografia procuraram suscitar nos seus alunos a compreensão do subdesenvolvimento (a importância, nos anos 1970, do livro “Geografia do subdesenvolvimento”, de Yves Lacoste, foi enorme, embora esse tema incorporasse também outros autores e obras significativos da época: Paul Baran e Paul Sweezy, Harry Magdoff, Teotônio dos Santos, Rui Mauro Marini, André Gunder Frank, etc.), ligando esse tema com o sistema capitalista mundial e as suas áreas centrais e periféricas. Eles procuraram também enfatizar a questão agrária do Brasil, a questão da distribuição social da renda (um tema recorrente no nosso pensamento crítico desde os anos 1970!), a questão da pobreza e da violência policial . Eles – esse pequeno grupo de professores do ensino médio, principalmente, os verdadeiros introdutores da geocrítica no Brasil  – estavam fazendo tudo isso enquando os “setores avançados” da universidade – é evidente que estamos nos referindo à geografia – enfatizavam obras/temas como “A organização do espaço”, de Jean Labasse, os “Pólos de desenvolvimento” ou, no máximo, o livro “Geografia ativa”, de Pierre George e outros (propostas distantes de qualquer saber crítico e claramente comprometidas com o planejamento estatal).

Em grande parte, podemos afirmar que a introdução da geocrítica a nível acadêmico deveu-se ao “encontro” ou diálogo desses professores de nível médio mais engajados e críticos com alguns raros docentes universitários que também estavam descontentes com toda aquela situação de controle, repressão e censura que existia na segunda metade dos anos 1960 e nos anos 70 no Brasil. Só para mencionar um exemplo significativo, podemos lembrar que nesse período sequer se podia falar em Geografia política e muito menos em “Geografia do subdesenvolvimento” nas universidades. Na própria USP, no Depto. de Geografia (considerado, com razão, como o “mais avançado” do país nessa época, o único que não foi subjugado nem pelos cursos de curta duração – Estudos Sociais – e muito menos pelo pragmatismo de inspiração norte-americana que rebaixava, ou melhor, travestia, a nossa disciplina de uma ciência humana e social para uma “geociência”), havia um curso de “Geografia do mundo tropical”, que ocupava o lugar daquela última e procurava “analisar” a realidade da América Latina, da África e de grande parte da Ásia sob esse parâmetro alicerçado na “Terra”!. 

Alguns poucos docentes universitários “abriram as portas” da academia para esses professores críticos e com uma boa dose de coragem aceitaram orientar (ou melhor, conceder a sua assinatura ou aval, ou aprender juntos, pois em geral eles dominavam esses novos temas menos que certos orientandos) a elaboração de dissertações de mestrado ou teses de doutorado sobre assuntos/objetos que até então eram interditados ao saber geográfico universitário: a autoajuda dos moradores de bairros populares, os problemas do desenvolvimento capitalista no campo, análises críticas da geopolítica brasileira e de seus projetos, a escola e o ensino da geografia como aparatos ideológicos, a industrialização e a produção do espaço em alguma região específica, o espaço geográfico como locus (e instrumento) de lutas sociais, as desigualdades (e a natureza classista) das formas de apropriação social do espaço, etc. Foi a partir desta confluência – entre uma meia dúzia de docentes universitários com doutorado e um punhado de (ex-) professores do ensino médio que já estavam revolucionando há anos esse saber nas salas de aula – que surgiu oficialmente, enquanto legitimação pela academia, a(s) geografia(s) crítica(s) no Brasil.

II.-  A geografia acadêmica e a AGB

A influência de Gramsci, direta ou indireta, foi notável nesse referida confluência que oficializou, via academia, a geocrítica no Brasil. O conceito gramsciano de hegemonia com base cultural foi o leitmotiv que conduziu esses professores críticos até a pós-graduação, até as pesquisas e a carreira universitária. É lógico que não foram todos os professores críticos de geografia que caminharam até a universidade nos anos 1970 ou inícios dos anos 80. Alguns deles foram presos, torturados e até assassinados nos porões da ditadura. Outros se engajaram em movimentos de “guerrilha” urbana ou rural. Outros ainda “sumiram” dos grandes centros urbanos, onde a repressão policial era mais acirrada e constante (como São Paulo) e foram trabalhar em regiões distantes de onde eram conhecidos, muitas vezes em pequenos centros urbanos do interior, temerosos e ao mesmo tempo relativamente desiludidos pelo desmantelamento dos grupelhos autointitulados revolucionários. Mas uma parcela deles fez esse referido percurso, procurando gramscianamente “tomar a universidade”, local a partir do qual teriam um maior influência cultural e conseqüentemente política. Foram eles quem produziram as primeiras obras – as primeiras teses ou dissertações, as primeiras pesquisas acadêmicas –, aquelas que ficaram, que em muitos casos foram publicadas total ou parcialmente, que estão disponíveis em certos arquivos e bibliotecas e, dessa forma, servem de marco como os albores (pelo menos no sentido documental) da geocrítica no Brasil.

Essa foi a primeira geração dos geógrafos críticos no Brasil(2). Foi a geração que produziu trabalhos pioneiros de pesquisas e/ou reflexões críticas acadêmicas nos anos 1970 (principalmente no final dessa década) e nos anos 1980. Depois dela veio a segunda geração, aquela dos anos 1990 e desta primeira década do século XXI, que em grande parte é constituída por (ex-)alunos ou orientandos dessa primeira geração (com a qual convive). Talvez a principal diferença entre elas seja  que a primeira geração era, pelo menos até o final dos anos 80, essencialmente gramsciana no sentido de acreditar que estava promovendo uma revolução (anti-capitalista e igualitária) na geografia e na universidade. A segunda geração, por sua vez (é lógico que toda regra admite exceções e que existem interpenetrações ou sobreposições), preocupa-se muito mais com o método, com novos enfoques para analisar o  “espaço”, com o prestígio científico ou social. Mas essas diferenças são antes de mais nada relativas e desde o início já havia determinadas ambiguidades ou aporias na(s) geografia(s) crítica(s) tanto no Brasil como no exterior(3). 

Afirma-se comumente que o Encontro de 1978 da AGB – Associação dos Geógrafos Brasileiros –,  teria sido o marco fundamental da introdução da geocrítica no Brasil. Sem nenhuma intenção de desmerecer esse importante Encontro, que ocorreu em Fortaleza e teve inúmeros méritos, acreditamos que essa interpretação é exagerada e mitificadora. É uma espécie de “discurso dos vencedores”, isto é, propagado por um punhado de geógrafos, na época estudantes (de graduação ou de pós-graduação) ou professores universitários sem grande prestígio (mas com potencial) e dominados/subordinados institucionalmente pelos medalhões, que contestaram o poder destes e democratizaram a AGB. Este foi afinal o grande significado desse encontro: uma democratização, mesmo que relativa (como toda democratização afinal, pois a democracia não é uma forma acabada e permanente e sim um processo que se expande continuamente), da AGB ao nível nacional, na qual deixaram de existir duas categorias de sócios (os plenos, os professores universitários, que podiam ser membros da diretoria; e os demais, que pagavam suas anuidades mas não podiam concorrer aos cargos decisórios) e a partir daí todos, pelo menos em tese, podem votar e ser votados, podem se inscrever na época apropriada – a cada dois anos – para concorrer aos cargos diretivos dessa associação. É lógico que esse punhado de “contestadores” (como foram chamados na ocasião) acabou por dominar a AGB nacional (e talvez até eles tenham se tornado nos “novos medalhões”), daí a expressão que empregamos, “discurso dos vencedores”.  Mas também o tema engajamento social, a favor dos explorados/dominados, foi apregoado, pela primeira vez num Encontro nacional da AGB, tendo como base (ou como uma espécie de “aval”, pois era uma obra oriunda da França) o livrete de Yves Lacoste “A Geografia – isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra”(4).

Mas a partir dessa democratização da AGB-nacional (pois a AGB-SP, a seção São Paulo da associação, já havia sido democratizada dois anos antes, desde 1976, e inclusive foi dela que surgiu a “edição pirata” dessa obra de Lacoste) não se pode falar em “introdução da geografia crítica no Brasil”, pois isso seria fazer uma espécie de história institucional (algo que lembra muito os historiadores tradicionais, que denegam as lutas populares e só promovem as mudanças nas instituições oficiais) e desqualificar toda uma ação anterior de centenas de professores de geografia, alguns dos quais pagaram caro por essa ousadia de revolucionar o conteúdo geográfico (e a prática pedagógica) nas salas de aula. E, por outro lado, não podemos exagerar a importância, embora ela exista, ou a difusão da AGB. Provavelmente cerca de 80% do professorado de geografia do país, a imensa maioria dos geógrafos portanto, até hoje (imagine-se então em 1978, quando a AGB era bem mais elitizada) nunca sequer ouviu falar dessa associação(5). 

Apesar de uma louvável democratização a partir de 1976-78, a AGB ainda é um reduto de professores universitários, principalmente dos mais jovens (doutores) e não mais apenas dos “figurões” (titulares) como era anteriormente, e pouco tem a ver com a realidade da geografia que predomina no Brasil e no mundo (e que contém o futuro desta disciplina), que é a geografia escolar no ensino fundamental e médio. Isso não é uma crítica destrutiva e sim uma constatação, ou, se preferirem, uma autocrítica (construtiva) no sentido de se identificar com essa associação e se preocupar com as suas insuficiências. E é lógico que existem inúmeras razões que justificam (embora não legitimem) esse estágio de coisas: a necessidade de apoio das universidades para que as AGB’s locais – que afinal são a base da nacional – possam existir (elas em geral, inclusive a de São Paulo, na qual a nacional está ancorada, mal conseguem pagar sozinhas a conta do telefone ou a  do provedor da internet, imagine-se então o aluguel de alguma sala; e tanto os diretores quanto os funcionários são professores ou estudantes que realizam voluntaria e gratuitamente essas tarefas), os baixíssimos salários percebidos pelos professores do ensino fundamental e médio (que assim não têm tempo nem dinheiro para freqüentar assiduamente as assembléias e os encontros da AGB) etc.  Mas confundir a AGB com a geografia do Brasil, como fazem aqueles que divulgam a idéia de que o Encontro de Fortaleza teria sido o “deflagrador” da geocrítica no país, é não enxergar a realidade, é confundir o todo com uma pequena parte.

III.-  A geografia educativa

Já vimos que foi a partir da atividade educativa que a geocrítica se iniciou e se desenvolveu no Brasil. Daí ela se expandiu até a atividade de pesquisas nas universidades, em especial na pós-graduação.  Mas muitos cometem o equívoco de identificar a geografia escolar com o conteúdo dos livros didáticos, o que é um viés unilateral e portanto deformador. Nessa ótica surgiram determinados trabalhos, principalmente algumas dissertações de mestrado defendidas nos anos 1990, que afirmaram que a geografia escolar crítica no Brasil teria nascido ou com o livro “Estudos de Geografia”, de Melhem Adas (1973) ou com a obra “Sociedade e espaço”, de J.W.Vesentini (julho de 1982). A nosso ver, nenhuma dessas opções é a rigor verídica, embora a segunda seria mais correta se estivéssemos falando tão somente dos compêndios escolares – e não da geografia escolar em geral. O manual didático é apenas uma parte da geografia escolar e não toda ela. (Ele é mais ou menos importante de acordo com o lugar e a conjuntura: será fundamental no caso de professores/escolas que o têm como base única e inquestionável, como uma “biblia” afinal. Mas ele será pouco importante no caso, mais comum do que se pensa, em que os professores/escolas não os utilizem ou os utilizem somente como apoio ou complemento).

Para mencionar a minha experiência pessoal, pois lecionei geografia nas escolas fundamentais e médias desde que ingressei no primeiro ano da graduação com 19 anos de idade, no início de 1970 (a falta de docentes desta disciplina era e ainda é imensa aqui em São Paulo!), muito antes de publicar o meu primeiro livro didático portanto, eu já elaborava textos (ou traduzia/adaptava outros, de autores variados e que em sua maioria sequer eram mencionados nos departamentos de geografia das universidades: Lacoste, Kropotkin, Brunhes, Gunder Frank, Magdoff, Sartre e Simone de Beauvoir, Baran, Mandel...) a respeito do capitalismo e do “socialismo real”, do sistema capitalista mundial, do movimento feminista e as conquistas das mulheres no mundo e no Brasil, dos movimentos sociais urbanos, da geopolítica mundial etc. Lembro-me em especial de duas experiências marcantes na minha carreira docente no ensino médio: o COE (Centro de Orientação Educacional, uma escola particular no bairro da Lapa, São Paulo, que virou uma cooperativa dirigida pelos professores) e o curso supletivo do Sindicato dos Metalúrgios de São Bernardo do Campo e Diadema. Lecionei naquele primeiro colégio de 1973 até 77 (tendo como grande parceiro o Gumercindo Milhomem) e no sindicato de 1974 até 1976 (tendo como grande companheiro o “Toninho” Pavanello). No COE, nós não apenas redefinimos todo o conteúdo da geografia escolar – inicialmente, em 1973, tentamos usar livros didáticos, especialmente aquele primeiro de Adas, recém-lançado na época, mas depois concluimos que eles eram inadequados para a nossa “proposta gramsciana” e passamos a só trabalhar com textos especialmente elaborados em função da realidade dos alunos e dos novos temas que abordávamos – como também mudamos a relação professor/aluno e a própria organização espacial da sala de aula. Abolimos as aulas expositivas e só trabalhávamos com leituras de textos (alguns com mapas e gráficos, que deviam ser interpretados), debates, dinâmica de grupos e estudos do meio. Chegamos levar todos os alunos para uma praia em Cananéia, no litoral de São Paulo, ficando lá uma semana inteira realizando um estudo de campo interdisciplinar que envolvia as marés, os recursos naturais e os problemas ambientais locais, a economia e a população (valores, cultura, demografia) de uma comunidade de pescadores, além da história do local. Orientamos os alunos nos levantamentos sobre mendigos e população de rua no bairro da Lapa, sobre  os problemas ambientais e de moradia do bairro etc.

Por sinal isso incomodava alguns, que denunciaram o colégio como “subversivo”, e o antigo DOPS, a polícia política da época, dirigida aqui em SP pelo delegado-torturador Fleury, duas vezes invadiu o colégio e prendeu para interrogatório alguns professores (aqueles que por azar estavam lá naquele momento), além de ter roubado equipamentos da nossa gráfica (nossa aparelhagem para imprimir textos e apostilas, inclusive com cores). Por idéia minha reorganizamos o espaço das salas de aula: abolimos o quadro-negro, a mesa do professor e as carteiras individuais dos alunos e no seu lugar colocamos algumas mesas redondas, para os alunos ficarem permanentemente em grupos  (um olhando para o outro ao invés de todos olhando para o professor ou para o quadro-negro) e com frequência abríamos uma imensa mesa-redonda na sala para realizar algum debate.

Quanto ao sindicato, onde lecionei por quase 3 anos para alunos trabalhadores, também introduzimos textos críticos e novos temas (inclusive o direito de greve e a luta de classes), mas não mudamos a organização espacial da sala de aula e nem mesmo a relação professor/aluno, pois cada classe tinha centenas de estudantes e as aulas expositivas eram uma imposição. Além disso, não eram os professores quem avaliavam os alunos do curso supletivo naquela época. Eles deviam prestar um exame unificado, que ocorria duas vezes por ano, no qual somente existiam questões tradicionais de múltipla escolha. No entanto, fomos advertidos várias vezes pela direção do sindicato (na época pelega) que deveriamos "maneirar" nas aulas pois o pessoal do DOPS havia entrado em contado com eles dizendo que receberam algumas denúncias e poderiam até fechar o curso supletivo. Inclusive foi esse o motivo da nossa demissão (minha e do outro colega da área, o Pavanello, que há alguns anos morreu num acidente de carro)  pela diretoria pelega do sindicato: que não ensinávamos "o que deveria"  (isto é, nomes de rios ou de planaltos) e sim outros temas "sociais" que não eram geográficos! Vários dos sindicalistas que mudaram completamente esse sindicato a partir de 1978 estudaram durante algum tempo nesse curso supletivo,  inclusive o Lula, embora este só eventualmente assistisse às aulas e nunca se interessou em prestar os exames supletivos.  Por sinal, eu e o Pavanello fomos chamados de volta para coordenar e lecionar nesse curso supletivo, em 1978, mas não aceitamos porque estávamos trabalhando em outro lugar ganhando muito mais (no SESC) e, principalmente, porque não acreditamos de fato, talvez tendo cometido um equívoco, que essa nova diretoria sindical (alguns eram pelegos anteriormente) iria de fato alterar radicalmente o perfil dessa associação de classe.

Enfim, concluindo esta “digressão” de natureza pessoal, gostaria de deixar claro que essas experiências – em especial os textos que elaborei nesse período (coloco na primeira pessoa do singular porque tanto o Gumercindo quanto o Pavanello, dois importantes companheiros nessas jornadas, não gostavam de redigir textos e sim de lecionar; os textos, principalmente aqueles com os novos temas, eram de minha exclusiva responsabilidade) – foram a base para a edição posterior dos meus primeiros livros didáticos, “Sociedade e espaço” (1982) e “Brasil, sociedade e espaço” (1984), que não por acaso são direcionados para o ensino médio.

O parágrafo anterior, quase que biográfico, só tem sentido porque acredito que isso foi mutatis mutandis o mesmo que ocorreu com dezenas, talvez centenas de outros professores de geografia pelo Brasil afora, alguns anteriormente (desde o final dos anos 1960). Ouvi falar sobre experiências similares, talvez até mais férteis, aqui em São Paulo (inclusive em alguns raríssimos cursinhos pré-vestibulares), em Santo André, no Rio de Janeiro, em Belo Horizonte e em outras cidades. Não posso escrever a respeito delas por falta de material de apoio. Mas acredito que foram experiências desse tipo que no final das contas iniciaram a geocrítica no Brasil, mesmo porque quando examinamos a história de vida de muitos dos que produziram no final dos anos 1970 e nos anos 1980 as obras críticas pioneiras da geografia brasileira, logo percebemos que via de regra eles começaram como professores no ensino médio (e/ou em cursinhos) e, antes mesmo de ingressar na pós-graduação ou na carreira universitária, já elaboravam textos e abordavam em suas aulas outros temas que na época eram considerados “não-geográficos”. 

Quanto aos compêndios escolares, reitero o que já afirmei: que eles não têm tanto importância assim (inclusive é no seu uso pelos professores na sala de aula que eles adquirem tal ou qual característica) e que a incorporação por alguns deles, nos anos 1970, das idéias “georgeanas” (de Pierre George e a sua  “geografia ativa”), não significou de maneira nenhuma uma reviravolta crítica. Foi somente uma renovação dentro do tradicional, na qual houve a abertura para alguns poucos novos temas – o planejamento, a conservação dos recursos naturais e o subdesenvolvimento entendido enquanto um rol de “características” – mas que eram assuntos e abordagens ainda não radicais e comprometidos com o Estado enquanto sujeito, com uma visão idílica de sociedade (sem contradições). Algo portanto muito distante daquilo que desde o início foi essencial na geocrítica, ou seja, a crítica do capitalismo e do socialismo real, a compreensão do subdesenvolvimento como parte periférica do sistema capitalista mundial, a incorporação crítica da geopolítica, a questão ambiental, o distanciamento relativo frente ao Estado e principalmente uma abertura para as contradições e para os sujeitos sociais (desde o proletariado até as mulheres, passando pelos moradores, consumidores, etnias subjugadas etc.) e as suas lutas.

IV.-  As publicações e a difusão na mídia

A expansão da geocrítica no Brasil também ocorreu a nível de publicações (revistas acadêmicas e em especial livros) e, pelo menos em parte, a nível de difusão pela mídia (rádio, televisão, revistas para o grande público e jornais). Houve um sensível – embora ainda insuficiente quando comparado à história ou às demais ciências sociais – aumento nas publicações geográficas não didáticas.

No caso das obras didáticas, ocorreu a partir do final dos anos 1980 uma progressiva mudança, com praticamente todos os autores tradicionais passando a incorporar – muitas vezes de forma indevida e tão somente mecânica ou imitativa – parte dos conteúdos críticos, mas a vendagem dessas obras no conjunto vem diminuindo bastante com o decorrer dos anos por dois motivos principais. Por um lado, aquele das escolas públicas, ocorreu uma perda de poder aquisitivo das famílias de baixas rendas, o que implicou num sacrifício do compêndio escolar (de todas as disciplinas e em particular das estereotipadas como “menos importantes”). Pelo outro lado, o das escolas particulares, tornou-se cada vez mais freqüênte o uso de apostilas padronizadas elaboradas por grandes redes que vendem as suas franquias: Objetivo, Positivo, Anglo etc.

Em todo o caso, talvez pela primeira vez, pelo menos no Brasil, livros geográficos não didáticos passaram a ser lidos e até citados por profissionais de áreas diversas: urbanistas, sociólogos, filósofos, cientistas políticos, economistas... Para mais uma vez mencionar um exemplo pessoal (afinal esta é uma escrita de natureza depoente), o meu livro “A capital da geopolítica”, de 1987 (mas baseado na minha tese de doutoramento, de 1985), teve já cinco edições e foi lido não apenas por geógrafos mas também – ou talvez até principalmente –  por urbanistas, cientistas políticos e historiadores (sei disso por informações de livreiros e também pelos inúmeros convites para falar sobre o assunto oriundos de departamentos de história ou de ciências sociais, de seções do IAB, de associações de moradores etc). Mas sem dúvida que o  trabalho pioneiro nesse sentido foi aquele mencionado livro-manifesto de Yves Lacoste, de 1976, que foi lido e citado por centenas de profissionais de outras áreas e também por jornalistas (lembro-me de uma resenha dessa época, assinada por Giles Lapouge, no sisudo jornal O Estado de S.Paulo, que ocupou duas páginas inteiras num domingo!). Por sinal, esse livrete de Lacoste, que nem de longe é a sua principal obra, foi provavelmente o trabalho geográfico (deixando-se de lado publicações não acadêmicas tais como a National Geographic e outras) mais divulgado em todo o mundo desde pelo menos os anos 1960, tendo sido traduzido e reeditado em dezenas de idiomas: do inglês ao árabe, do japonês ao alemão, do sueco ao italiano, etc. Depois dele só o livro “A condição pós-moderna”, de David Harvey (de 1989), alcançou tamanha difusão internacional.

Também a geografia brasileira passou a publicar muito mais que anteriormente, com o revigoramento de alguns periódicos já existentes (como o Boletim Paulista de Geografia) e o surgimento de novos outros (como a revista Terra Livre e inúmeras outras de seções locais da AGB e/ou de departamentos de geografia das universidades). Autores que escreveram sucintos livros de divulgação da geocrítica, como principalmente Rui Moreira (O que é geografia, de 1980) e Antonio Carlos Robert de Moraes (Geografia: pequena história crítica, de 1981), alcançaram enormes vendagens e sucessivas reedições. Também os livros dogmáticos Introdução à geografia – geografia e ideologia, de Nelson Werneck Sodré (de 1976), e Marxismo e geografia de Massimo Quaini, traduzido para o português em 1979, tiveram uma grande importância na propagação da(s) geografia(s) crítica(s) para o grande público brasileiro e para os estudantes universitários, pelo menos durante uma fase inicial que ocorreu de meados dos anos 70 até o final dos anos 80. Para os professores de geografia em geral, que afinal são – pelo menos em tese – os grandes consumidores dessas obras na medida em que o grande mercado de trabalho no Brasil para os geógrafos sempre foi o ensino, duas coletâneas de textos sobre a geografia escolar, de autores variados (brasileiros e franceses), tiveram e ainda têm uma grande importância: Para onde vai o ensino da geografia? (editora Contexto, 1989, organização de Ariovaldo U. de Oliveira) e Geografia e ensino: textos críticos (editora Papirus, 1989, organização de J.W.Vesentini). São obras que passaram a ser recomendadas em quase todos os concursos para professores, que conheceram várias reedições e que incorporam pontos de vista diferenciados (e às vezes até alternativos) e refletem bem a natureza pluralista da geocrítica no que se refere ao entendimento do ensino da disciplina.

Um autor que indiscutivelmente merece um destaque à parte nessa trajetória da geocrítica no Brasil foi Milton Santos. Não tanto pela sua influência nas pesquisas ou nos trabalhos científicos e/ou pedagógicos e sim pela sua presença marcante na academia (como um “novo mandarim”) e principalmente na mídia. Ele publicou em 1978 o livro Por uma geografia nova (Da crítica da geografia a uma geografia crítica), que no fundo pretendeu emular com o mencionado livro-manifesto de Yves Lacoste e também propugnar uma “nova geografia”, só que “científica” e “não ideológica” (com uma forte clivagem entre ciência e ideologia, inspirada em Althusser, que Lacoste considera sem importância) e que enfatizasse o espaço enquanto “totalidade”. Mas a influência dessa proposta foi irrisória,  visivelmente menor que a de Lacoste (ou mesmo que a de Quaini, de Moreira, de Moraes e outros) devido a um certo ecletismo – mistura ou sobreposição sem coerência da análise sistêmica, via ecossistemas, com a idéia hegelo-marxista de totalidade (entendida pelo viés althusseriano) –, e principalmente devido à  falta de engajamento e de sujeitos sociais, além das ambiguidades na noção de espaço (que se torna fetichizado). Se Lacoste escreveu a sua obra em face do maio de 1968 na França e como uma análise/denúncia da importância do raciocínio geográfico para a guerra do Vietnã, tendo como interlocutores os cidadãos em geral, pensando em contribuir para a expansão dos direitos democráticos (entre os quais ele incluiu o “saber ler os mapas” e “conhecer o espaço geográfico para nele atuar mais eficazmente”), Santos por sua vez não soube muito bem a quem se dirigir e com um viés positivista propôs uma “nova ciência” – ele chegou até a sugerir o rótulo espaciologia no lugar de geografia – que enfocasse o espaço enquanto sujeito (sic!) e como totalidade (ou melhor, como formação sócio-econômica, ou “sócio-espacial”). É evidente que tal proposta teórico-metodológica não poderia ter grande aplicabilidade nas análises de fato críticas, ou mesmo nas pesquisas engajadas (que em alguns casos não são críticas), pois quem estuda, por exemplo, as lutas pela terra no meio rural tem que privilegiar os sujeitos sociais envolvidos nos conflitos e não uma espaciologia abstrata;  e quem estuda a questão da moradia nas cidades tem que privilegiar os movimentos sociais urbanos – ou então a política estatal – em contraposição aos interesses imobiliário; e quem estuda as fronteiras ou o território tem que buscar os atores e os seus instrumentos (inclusive ideológicos) que (re)construíram esses objetos e não ficar regurgitando a respeito do espaço enquanto totalidade.

Por isso, autores como Foucault (nas relações entre espaço e poder e no entendimento deste como rede, como algo mais amplo que o Estado) e Lefebvre (no entendimento do espaço produzido pelo capitalismo e pelas lutas sociais), principalmente, além de outros (Lipietz e Francisco de Oliveira, na questão regional; José de Souza Martins, na análise dos sujeitos do meio rural brasileiro; Claude Raffestin, na redefinição de conceitos como território/territorialidade, espaço/espacialidade etc.), foram e são muito mais importantes nos trabalhos acadêmicos da geocrítica brasileira – em especial nas geografias política, social, regional, demográfica, urbana e agrária – do que a espaciologia de Milton Santos. Este, no final das contas, só acabou produzindo uma meia dúzia de discípulos bem comportados e pouco criativos, que recolhem informações ou dados estatísticos sobre temas “novos” (telecomunicações, aeroportos, hotéis, sistema bancário etc.) e tão somente os reproduzem acompanhados de frases estereotipadas extraídas do mestre (tais como “este espaço manda e aquele obedece”, “isto é um fixo e aquilo é um fluxo” ou “o território é desigualmente apropriado”), sendo incapazes de engendrar qualquer tese de fato ou mesmo qualquer idéia nova a respeito do assunto abordado.

O último livro de Santos, O Brasil,  território e sociedade no início do século XXI  (editado em 2000 em co-autoria com Maria Laura Silveira, além da ajuda de inúmeros estagiários, que receberam bolsas de iniciação científica durante anos e fizeram levantamentos bibliográfico e de dados e  resenhas de livros e teses), justamente o mais ambicioso de todos – os autores afirmaram que ele já nasceu como um “clássico” comparável às obras de Caio Prado Júnior, Celso Furtado e Florestan Fernandes (sic!) – é bastante representativo dessa incapacidade da espaciologia em produzir qualquer trabalho importante ou mesmo criativo. Existe nas 473 páginas dessa obra um amontoado de dados estatísticos, mapas e informações descritivas, que podem ser facilmente obtidos por qualquer pessoa em almanaques ou anuários especializados – sobre a rede bancária no Brasil, os aeroportos, as redes de transportes, as refinarias de petróleo e os dutos, os shopping centers etc. – e nenhuma tese ou idéia nova a respeito do significado disso tudo, apenas a constante repetição, em cada capítulo, de que “alguns espaços mandam” (o Sudeste, especialmente São Paulo) e outros “obedecem”. Não existe nenhuma análise dos sujeitos, das classes ou grupos sociais, e nem mesmo qualquer referência às lutas e conflitos ou aos projetos que (re)constroem o espaço ou o território. É uma obra que lembra muito aqueles longos artigos tradicionais do IBGE dos anos 1950, 60 e parte dos 70, sobre a atividade indústrial, as cidades grandes e médias, os estabelecimentos agropecuários, etc., nos quais nunca havia uma explicação geográfico-científica e sim um acúmulo de informações e dados estatísticos, sempre acompanhados de cartogramas que mostravam a distribuição do objeto estudado no território nacional. A única diferença é que este livro procurou “sintetizar”, ou melhor abordar na mesma obra todos aqueles temas que as publicações do IBGE enfocavam separadamente (mas eles não estão integrados no livro e sim divididos em capítulos distintos) e em cada um deles é repetida à exaustão a retórica pseudo-crítica de que o “território é apropriado desigualmente” e que existem “áreas que mandam” (ou exploram) e outras que são “subordinadas”(6).

Entretanto, é inegável a importância que Milton Santos teve na difusão, através da mídia, da geocrítica brasileira. Ele foi o único geógrafo a sair nas páginas amarelas da revista Veja, a ser longamente entrevistado em praticamente todos os programas importantes da televisão e também em todos os principais jornais e revistas do país, a escrever periodicamente colunas na página 3 do jornal Folha de S.Paulo etc. Ao seu redor criou-se um grupo com ramificações em todo o território nacional (e até no exterior – por exemplo, na Argentina) que constantemente o promovia. Realizaram-se na primeira metade dos anos 1990 vários encontros ou seminários internacionais sobre a nova ordem mundial ou sobre o novo mapa-mundi, com subsídios oriundos do CNPq e de outros órgãos públicos de financiamento (nos quais Santos e o seu grupo sempre tiveram grande poder), sendo convidados vários importantes geógrafos franceses e norte-americanos e, indefectivelmente, ele era designado para ser o conferencista da abertura. Essa entourage conseguiu até – e essa foi a verdadeira “pedra de toque” de toda a estratégia de promoção da sua figura e, por tabela, de todo o grupo – forjar uma imagem sua como “refugiado esquerdista” da ditadura militar(7) e, principalmente, convencer a mídia brasileira que o (então) recém-criado e desconhecido prêmio Vautrin Lud, que Santos ganhou em 1993, era uma espécie de “prêmio Nobel da geografia”.

Enfim, a partir dos anos 1990 pouco a pouco a figura de Santos e a geocrítica brasileira passaram a se confundir a nível da mídia. Isso nunca ocorreu no plano da realidade – das pesquisas, das teses e das obras publicadas – e muito menos na consciência da maior parte dos geógrafos, em especial do professorado. Mas sem dúvida que ocorreu na mídia e, consequentemente, na compreensão de boa parte do público e até dos profissionais de outras áreas. Eu mesmo há uns dois ou três anos ouvi uma pergunta-afirmação, feita por um jornalista que fazia doutorado na USP e lecionava no departamento de jornalismo de uma universidade federal (num estado sulino), se foi depois e devido ao Milton Santos que a geografia deixou de ser uma disciplina descritiva e voltada para a memorização de nomes de capitais ou de rios... E mais recentemente, há poucas semanas, um professor universitário de geografia de um país latino-americano me enviou um e-mail solicitando ajuda no levantamento das obras de Santos (e apenas dele) para que ele pudesse escrever um artigo sobre a “história da geografia crítica no Brasil”.

Resta apenas avaliar se esse identificação da geocrítica brasileira com a figura do Milton Santos, operada pela mídia, foi positiva ou negativa. Talvez tenha sido positiva na medida em que contribuiu para ampliar o espaço da geografia nos meios de comunicação de massas. Mas talvez tenha sido negativa na medida em que obliterou outras falas, outros caminhos e alternativas diferenciadas, sugerindo uma homogeneidade onde sempre houve pluralidade e uma rica complexidade. Em todo o caso deve-se lamentar a sua morte prematura em junho deste ano, num momento em que ele estava numa grande efervescência intelectual. Pois bem ou mal ele sempre buscou incorporar novos temas ao discurso geográfico e, indiscutivelmente, teve o mérito de acompanhar as mudanças que ocorreram nos últimos anos e décadas no espaço mundial e no território brasileiro. Que ele descanse em paz e que, mesmo sem a sua importante contribuição, a(s) geografia(s) crítica(s) do/no Brasil prossiga(m) nesse seu itinerário de revolucionar o ensino da disciplina, de abordar/incorporar novos temas e de realizar outros e mais criativos (e comprometidos socialmente) estudos e pesquisas.

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NOTAS:

* Texto inédito, escrito em outubro de 2001 apenas como hipertexto deste site.

** Professor e pesquisador do Departamento de Geografia da FFLCH da Universidade de São Paulo.

1. Ver o texto desse autor – O ensino da geografia –, disponível neste site in: http://www.geocritica.com.br/texto03-5.htm

2. Convém reiterar, para evitar mal-entendidos, que estamos nos referindo à geografia crítica no sentido dado a partir dos anos 1970 por Lacoste, Capel, Harvey e outros, na qual evidentemente existem altos e baixos, trabalhos de excelente nível e outros nem tanto. Não pretendemos ser maniqueístas e advogar que só há ótimos textos nesta nova modalidade de geografia (alguns são até dogmáticos e panfletários!), e muito menos que só existiam textos ruins na geografia tradicional.

3. Veja-se sobre isso o nosso texto de 1984 -- “Percalços da geografia crítica: entre a crise do marxismo e o mito do conhecimento científico”  --, publicado nos Anais do 5o Congresso Brasileiro de Geógrafos (São Paulo, julho de 1984, volume 2, pp.423-33).

4. A primeira edição dessa obra, em francês, deu-se em 1976 (e logo surgiu uma tradução portuguesa, que foi xerocada em São Paulo e originou uma “edição pirata” brasileira, com milhares de exemplares que em grande parte foram vendidos em Fortaleza durante o Encontro de 1978). Uma edição mais recente, traduzida de uma nova versão ampliada escrita pelo autor, foi publicada em 1988 pela editora Papirus, de Campinas. Nesta, existe uma introdução de nossa autoria que realiza uma espécie de “balanço” a respeito do significado dessa obra na geografia brasileira.

5. Utilizo esse número (e esse raciocínio) com base em pesquisas feitas em 1995-6 por alunos do meu curso “Geografia crítica e Ensino” nas antigas Delegacias Regionais de Ensino da Grande São Paulo, quando constatamos que 54% dos professores de geografia na rede pública (de 5a á 8a séries e no ensino médio) não são formados nesta disciplina, sendo estudantes (principalmente de história, ciências sociais ou geografia) ou engenheiros, advogados, teólogos ou seminaristas, historiadores ou sociólogos etc. A única referência que grande parte desse pessoal possui, sobre as mudanças na geografia, é a que está contida nos (poucos) bons livros didáticos, que algumas vezes eles usam para preparar suas aulas (mas não como livro-texto dos alunos, que no máximo possuem um caderno). Se essa é a realidade da Grande São Paulo, o centro dinâmico da economia nacional, imagine-se então a situação mediana no restante do país!

6. Antes que algum desinformado imagine que estou negando que o território (qualquer um e não apenas o brasileiro) é “desigualmente apropriado” ou que existem regiões mais e menos desenvolvidas (pensando-se não somente em termos de localização de indústrias ou de shopping centers e sim de padrão de vida dos habitantes), gostaria de lembrar que essa é uma velha discussão das ciências sociais (desde pelo menos Marx e já abordada por geógrafos do passado como Kropotkin e outros) e que o pensamento crítico, em todas as suas vertentes, sempre reprochou essa interpretação conservadora de que uma região (ou espaço) explora outra(s), pois essa idéia omite as relações sociais de dominação e faz o jogo dos dominantes ao espacializar ou reificar uma atividade interhumana. Não é por acaso que as elites ou as oligarquias regionais dessas áreas atrasadas se identifiquem plenamente com esse discurso (do tipo, por exemplo, deste raciocínio simplista encontrável nesse livro: “Se São Paulo, que é apenas um estado, possui 30 aeroportos – ou shopping centers ou universidades – , por que o Piauí, que também é um estado, só possui dois?”, no qual essa entidade mitificada, o território dos estados, acaba sendo mais importante que os cidadãos), pois ele esconde a sua dominação social autoritária (que normalmente acompanha qualquer atraso econômico-social) e cria um “inimigo” a ser combatido por todos, nivelando dominantes e dominados, além de implicar na reivindicação de mais investimentos, mais verbas, que no final das contas acabam sendo apropriadas por essa elite. Observe-se ainda que existe um sujeito implícito nesse tipo de discurso – o Estado, naturalmente –, que seria o ator encarregado de “corrigir [de cima para baixo] os desequilíbrios territoriais” através de uma realocação dos seus gastos (que logicamente originam-se nos  impostos pagos em especial pelos cidadãos das áreas mais ricas e populosas, os quais nunca são consultados ou sequer auscultados nesse raciocínio autoritário).

7. A rigor, essa imagem é maquiada, pois até o golpe militar de 1964 Santos foi muito ligado a José Aparecido, uma das figuras-chave do governo populista e direitista de Jânio Quadros. Ele se auto-exilou na França por conveniência e não devido a qualquer perseguição por parte dos órgãos de repressão. Ademais, só podemos lamentar esta nossa cultura subdesenvolvida que transforma em “heróis” aqueles que no pós-64 saíram do país e viveram durante algum tempo no Chile, em Cuba ou na França, pois os que contribuiram de fato na luta contra a ditadura militar foram os que aqui permaneceram e continuaram atuando apesar de todos os riscos.