Geografia para educadores: a experiência norte-americana

Meio ambiente e educação global são agora partes do curso de qualquer estudante, a nível fundamental ou médio, nos Estados Unidos e também em grande parte do mundo. Todavia, algumas pesquisas realizadas entre grupos de estudantes mostraram que eles sabem muito pouco sobre geografia. Isso é estranho e inaceitável na medida em que a geografia é o estudo do nosso próprio planeta enquanto morada da humanidade. O que poderia ser mais importante? O propósito deste livro é auxiliar os professores de geografia sobre o "como" e o "que" ensinar nessa disciplina revalorizada. Grande parte deles expressou o seu sentimento de desconhecimento frente aos novos National Geography Standards, documentos que foram editados há pouco. Usando esses documentos como referência, em especial os cinco temas fundamentais do ensino geográfico aí colocados -- Localização, Lugar, Interação Homem/meio ambiente, Movimentos e Região -- , este texto tenta explicar o sistema físico, cultural e econômico que interage e opera neste dinâmico planeta, de forma a que os professores o compreendam e adaptem ao nível de seus alunos. O objetivo deste e também do National Geography Standards é abandonar o tradional estereótipo da geografia como memorização através de uma concepção explicativa sobre como o sistema planetário funciona(...) No capítulo 1 iniciaremos com a discussão sobre a importância da educação geográfica neste mundo no qual as interconexões globais são cada vez mais importantes. No capítulo 2 discutiremos o papel histórico da geografia no sistema educacional da América do Norte, além de oferecer exemplos sobre como a geografia é ensinada em outros países. Nos demais capítulos abordaremos como cada um daqueles cinco temas fundamentais da geografia escolar podem ser trabalhados. No tema Localização usaremos o instrumento primário da disciplina, o mapa, para concluir como a localização é importante na história, nos problemas urbanos, nas atividades econômicas e nas questões políticas. No tema Lugar iremos mostrar que os lugares são mais do que simples localização. Eles são freqüentemente estados de espírito e afetam enormemente as decisões que tomamos. Também relacionaremos os lugares com as suas características físicas, após um estudo do sistema do planeta Terra -- tanto no aspecto físico quanto biótico -- e a forma pela qual ele divide e cria lugares. Essas características físicas formam as fundações para os modelos humanos.Depois mostraremos as relações entre as decisões humanas e os processos físicos e bióticos: são as Interações Homem/ambiente. Iremos também aprender sobre como o balanço da atividade humana modifica a dinâmica natural de nosso planeta. Na abordagem do tema Movimento -- de pessoas, bens e idéias -- nós enfatizaremos que a Terra não é algo permanente e sim um movimento, um em-se-fazendo que expressa movimentos e mudanças. Enfim, no capítulo 12 abordaremos o tema Região, mostrando que o pensamento regional é provavelmente o conceito geográfico mais popular e o mais freqüênte meio de dividir ou agrupar pessoas e lugares na superfície da Terra. Elas são também um motivo para ligações com viagens e explorações. Finalmente, no último capítulo, iremos apresentar alguns exemplos de como a geografia pode ser aplicada -- a "geografia em ação" -- no entendimento de grandes eventos históricos e na elaboração de modelos geográficos(...)

A mídia nos relembra a cada dia que somos todos membros de uma sociedade global. Dependemos de pessoas de outras regiões do nosso país e do globo. Porém, quanto sabemos sobre outros lugares? Será que nossos homens de negócios e líderes políticos conhecem o suficiente a respeito dos povos e da superfície deste planeta? Muitas das mais largas corporações do mundo hoje em dia são multinacionais. Bancos, empresas extrativas, firmas de vendas na atualidade dependem do mercado global. Os professores com freqüência usam uma visita ao shopping center local como uma lição de geografia, examinando os rótulos dos produtos para enfatizar a influência internacional sobre as nossas vidas diárias. E inversamente, produtos norte-americanos estão difundidos através do mundo: por exemplo, certos restaurantes do tipo fast food existem atualmente em praticamente todas as maiores cidades do mundo(...) Preocupações sobre o "analfabetismo geográfico" tem sido expressas nos últimos dez anos por inúmeros educadores, políticos e outros líderes nacionais. Em 1986, por exemplo, o superintendente para a escola pública do estado da Califórnia afirmou que "Na atualidade nossos estudantes são mais iletrados em geografia do que nunca anteriormente". Em 1987, o senador Edward Kennedy afirmou na "Semana de Consciência Geográfica", realizada no Senado federal, que: "Todos nós no Congresso imaginamos que é de vital importância melhorar nosso sistema educacional se quisermos manter a nossa posição competitiva na economia mundial. Como parte desse esforço, nós devemos nos assegurar que os jovens americanos tenham uma clara compreensão sobre como o mundo é e quais são as influências humanas geograficamente positivas" (KENNEDY, E. Speaking in support of Geography Awareness Week. Congressional record, june 1987). O patrocinador dessa "Semana da Consciência Geográfica" [Geography Awareness Week], Senador William Bradley, incluiu as seguintes palavras no seu depoimento: "Nós dependemos de uma bem informada população para manter os ideais democráticos que fizeram a grandeza deste país. Quanto 95% de nossos estudantes universitários não conseguem localizar o Vietnã num mapa-múndi, nós devemos ficar alarmados. Quando 63% dos americanos que participaram de uma pesquisa nacional feita pela CBS e pelo Washington Post não conseguiu dar o nome de duas nações envolvidas nas conversações SALT, nós estamos falhando em educar nossos cidadãos a competir neste mundo cada vez mais interdependente". O presidente da Sociedade Geográfica Nacional, G.Grosvenor, tem falado em vários lugares do país em prol de uma melhoria na educação geográfica. Nas suas palavras: "Ignorar geografia é irresponsável. Ela é tão importante para os negócios e a política doméstica quanto para as decisões militares e de política exterior.". O trabalho do Conselho Nacional para a Educação Geográfica e da National Geography Society resultou na inclusão da geografia no rol das cinco disciplinas escolhidas pelo exame do National Assessment of Educational Progress (NAEP) em 1994. Esse importante esforço nacional resultou, no final de 1994, nos National Geography Standards(...) Essa aliança de professores [do ensino elementar e médio], administradores, docentes de faculdades e universidades, além de geógrafos profissionais, acabou por conduzir o movimento pela reforma do ensino da geografia até as raízes em milhares de escolas individuais em todos os estados da nação(...)

A tradição da geografia enquanto lugar, localização e mapas constituiu-se antes da Revolução científica. Certos generalistas contribuiram com obras enciclopédicas, tal como Alexander von Humbolt e o seu Kosmos, publicados em quatro volumes entre 1845 a 1862. Essa tradição da geografia enquanto viagens e explorações ainda é numerosa em vídeos, programas de televisão e artigos em revistas populares, além de também estar imersa na recente onda de interesse por turismo(...) De 1920 até os anos 1950, a geografia norte-americana tornou-se numa disciplina acadêmica com base no modelo europeu. Inventários sobre recursos e uso da terra foram conduzidos nos Estados Unidos. Após a Primeira Guerra Mundial, por exemplo, o geógrafo I. Bowman advertiu os governos mundiais a respeito de problemas de fronteiras e contribuiu para organizar a Liga das Nações. Durante e após a II Grande Guerra, geógrafos continuaram a assessorar na política externa e em questões de segurança nacional e geopolítica. Hoje em dia inúmeros geógrafos estão empregados em agências federais tais como o USDA Forest Service, o US Geological Survey, o Departamento do Comércio e o Departamento de Defesa. A concepção popular de geografia, nos anos 1960 e 70, teve dois focos: problemas de base e técnicas quantitativas. Questões como relações competitivas, moradia, direitos das mulheres e meio ambiente foram incluídos na agenda dos geógrafos. Nos anos 1990 o escopo da geografia finalmente tornou-se mais claro e visível ao público. Quase todos os geógrafos -- pesquisadores, professores e profissionais -- agora idenfificam-se como parte do mesmo time. Hoje em dia é difícil encontrar agências públicas ou mesmo grandes companhias envolvidas com terra ou recursos naturais que não tenham geógrafos entre os seus funcionários(...)

A geografia, assim, estuda povos no espaço e em lugares na superfície terrestre. Esta é a moderna geografia. No passado a geografia foi descritiva, mas hoje em dia ela é mais analítica e às vezes até preditiva(...) A geografia combina o estudo de lugares com a formulação de conceitos e princípios. Ela promove um entendimento sobre modelos, processos e as paisagens daí resultantes no planeta. A significância do estudo da Terra é dada pelas necessidades humanas. A geografia tem uma "linking" temática [isto é, uma temática de conexão]. Ela une as ciências naturais com as sociais, tendo uma perspectiva humanista. À medida que entramos no novo milênio, nós estamos também entrando numa economia global, num período de intensas migrações internacionais, de preocupações ambientais globais e ainda de uma capacidade comunicativa universal. Nestas circunstâncias, a análise generalista é bastante necessária. Podemos então apresentar a geografia como o estudo do espaço terrestre, a análise dos aspectos do planeta e um entendimento das relações entre o meio ambiente natural e cultural. Esta rede complexa de fatos e inter-relações pode ser feita pela aplicação de conceitos universais. Por exemplo, se estudarmos a geografia econômica da África do Sul poderemos identificar os processos físicos que lá ocorrem e as decisões humanas que criaram a economia local. Um dos principais processos é a mineração de diamantes, que pode ser conceituado como recurso extrativo. Outros conceitos são desenvolvidos na comercialização desse produtos, incluindo seu transporte e fabricação de outros materiais. Os conceitos são aqui definidos como "generalizações que ajudam os estudantes a entender como o sistema natural planetário funciona e como a atividade humana produz lugares na sua superfície". Vamos supor que decidimos estudar a geografia cultural de uma região. Podemos identificar os grupos étnicos na área, o que pode nos conduzir até o conceito de pluralismo cultural. A ênfase deste texto será na conceitualização, na natureza conceitual da geografia e não na descrição de lugares(...)

A defasagem [gap] entre os professores de geografia na escola elementar e média e os geógrafos profissionais -- que normalmente são professores universitários ou pessoas que trabalham em agências públicas ou em empresas particulares --, era com freqüência muito grande nos Estados Unidos. Felizmente, nos últimos anos, devido ao recente sucesso dos conhecimentos geográficos aos olhos do público e o crescente interesse por essa disciplina nas escolas, existe um estreitamento dessa defasagem, que aos poucos está diminuindo(*). O início dessa corrente de energia entre todos os geógrafos, e a crescente comunicação entre eles, começou em 1983 na Califórnia com a criação de uma Aliança de informações entre os professores, administradores e geógrafos universitários com o propósito de levar suas preocupações até os órgãos estatais que revisam os curriculos escolares. Essa Aliança obteve a atenção da Sociedade Geográfica Nacional, que no mesmo momento publicava editoriais a respeito do "analfabetismo geográfico" no país. Da mesma forma, programas de televisão começaram a mostrar o problema do desconhecimento geográfico entre o público americano e entre os estudantes de escolas públicas e particulares. Devido a isso tudo as Alianças Geográficas se multiplicaram: eram 14 em 1985, 27 em 1988 e 51 em 1993 (uma em cada estado e duas na Califórnia). O papel básico dessas Alianças tem sido o de coordenar as energias dos professores, acadêmicos, estudantes e geógrafos profissionais para melhorar a educação geográfica no país. Elas produziram um verdadeiro forum de discussões que ajudaram nas reformulações dos currículos, além de proporem novos métodos de aprendizagem(...) Esse despertar da consciência geográfica estimulou os educadores e os geógrafos a repensarem os conteúdos básicos que devem estruturar a "alfabetização geográfica" que todo cidadão deve saber. As formas tradicionais de ensino da disciplina prendiam-se ao regional e ao topical, numa ordem de apresentação enciclopédica que tornava difícil ir além do nível descritivo(...) Representantes da Associação dos Geógrafos Americanos e do Conselho Nacional para a Educação Geográfica pensaram em cinco temas fundamentais, que parecem resultar num enorme sucesso ao conseguir a atenção do público e dos professores de geografia em todo o país(**). Esses cinco temas, adaptados, conduzem ao estudo de qualquer lugar. O primeiro deles é a localização ou posição na superfície terrestre, com intenso uso de mapas. O segundo é o lugar, entendido como uma porção física e humana do espaço terrestre. O terceiro são as relações entre a sociedade humana e o meio ambiente. O quarto são os movimentos: as migrações, o comércio, as comunicações, a globalização. E o quinto tema aborda as regiões, tanto a nível interno dos Estados Unidos quanto a nível internacional (América Latina, Europa, Oriente Médio, etc.).

(Trechos selecionados de HARDWICK, Susan W. e HOLTGRIEVE, Donald G. Geography for educators. Standards, themes and concepts. New Jersey, Prentice Hall, 1996. Seleção e tradução de José William Vesentini)

 

(*) Para se explicar melhor essa defasagem, temos que recordar que tradicionalmente os professores de geografia, na escola elementar e média dos Estados Unidos, são formados em outras áreas -- ciências sociais -- e têm apenas algumas disciplinas semestrais geográficas no currículo. Além disso, eles em geral lecionam várias disciplinas ao mesmo tempo -- história, sociologia, geografia, etc. -- e com isso não têm tempo (ou preocupações) com a reciclagem específica na geografia. Mas, como assinala o texto, isso está mudando, principalmente após 1994, devido a uma maior valorização da disciplina geografia no sistema escolar -- em muitas escolas/estados ocorreu até um aumento na carga horária --, ao fato de que, pouco a pouco, os professores de geografia já não precisam mais lecionar outras disciplinas para completar a sua carga horária, e ao sucesso desse movimento do "despertar geográfico", que deu origem a inúmeros cursos de reciclagem, a vários Encontros/Congressos voltados para a geografia escolar, a novas revistas geográficas de boa qualidade destinadas aos professores, etc. (JWV)

(**) Convém lembrar que nos Estados Unidos os parâmetros ou modelos curriculares nacionais [tal como os National Geography Standards] não são obrigatórios nas escolas particulares e nem mesmo nas públicas, pois a estrutura democrática e federativa do país confere a cada comunidade local o direito de escolher "o que" e "como" ensinar, o que é feito através de reuniões anuais entre professores, pais de alunos e outros representantes da comunidade (líderes políticos, sindicais e empresariais). Daí a ênfase dos autores no fato de que esses novos currículos tiveram grande aceitação. (JWV)