A educação do futuro

Todo conhecimento comporta o risco do erro e da ilusão. A educação do futuro deve enfrentar o problema da dupla face do erro e da ilusão. O reconhecimento do erro e da ilusão é ainda mais difícil porque eles não se reconhecem, em absoluto, como tais. Erro e ilusão paralisam a mente humana desde o aparecimento do Homo Sapiens. Marx e Engels enunciaram justamente em A ideologia alemã que os homens sempre elaboraram falsas concepções de si próprios, do que fazem, do que devem fazem, do mundo onde vivem. Mas nem Marx nem Engels escaparam destes erros. A educação deve mostrar que não há conhecimento que não esteja, em algum grau, ameaçado pelo erro e pela ilusão. A teoria da informação mostra que existe o risco de erro sob o efeito de perturbações aleatórias ou de ruídos (noise) em qualquer transmissão de informação, em qualquer comunicação de mensagem. O conhecimento não é um espelho das coisas ou do mundo externo. Todas as percepções são, ao mesmo tempo, traduções e reconstruções cerebrais com base em estímulos ou sinais captados e codificados pelos sentidos.

O desenvolvimento do conhecimento científico é um poderoso meio de detecção dos erros e da luta contra as ilusões. Entretanto, os paradigmas que controlam a ciência podem desenvolver ilusões, e nenhuma teoria científica está imune para sempre contra o erro. Além disso, o conhecimento científico não pode tratar sozinho dos problemas epistemológicos, filosóficos e éticos. Ainda que as teorias científicas sejam as únicas a aceitar a possibilidade de serem refutadas, também elas tendem a manifestar essa resistência. Quanto às doutrinas, que são teorias fechadas sobre elas mesmas e absolutamente convencidas de sua verdade, são invulneráveis a qualquer crítica que denuncie os seus erros(...) O Ocidente europeu acreditou, durante muito tempo, ser proprietário da racionalidade, vendo apenas erros, ilusões e atrasos nas outras culturas, e julgava qualquer cultura sob a medida de seu desemprenho tecnológico. Entretanto, devemos saber que em qualquer sociedade, memo arcaica, há racionalidade na elaboração de ferramentas, na estratégia da caça, no conhecimento das plantas e animais, do solo, ao mesmo tempo que há mitos, magia e religião. Em nossas sociedades ocidentais também estão presentes mitos, magia, religião, inclusive o mito da razão providencial de uma religião do progresso(...) Daí decorre a necessidade na educação do futuro de um princípio da incerteza racional: a racionalidade corre risco constante, caso não mantenha vigilante autocrítica quanto a cair na ilusão racionalizadora. Isso significa que a verdadeira racionalidade não é apenas teórica, apenas crítica, mas também autocrítica.

Marx dizia justamente: "Os produtos do cérebro humano têm o aspecto de seres independentes, dotados de corpos particulares em comunicação com os humanos e entre si." Acrescentemos: as crenças e as idéias não são somente produtos da mente, são também seres mentais que têm vida própria e poder. Dessa maneira, podem possuir-nos. Uma vez mais vemos que o principal obstáculo intelectual para o conhecimento se encontra em nosso meio intelectual de conhecimento. Lénin disse que os fatos eram inflexíveis. Mas ele não havia percebido que a idéia-fixa e a idéia-força, ou seja, as suas, eram ainda mais inflexíveis. O mito e a ideologia destroem e devoram [e constroem] os fatos. Entretanto, são as idéias que nos permitem conceber as carências e os perigos da idéia. Daí resulta este paradoxo incontornável: devemos manter uma luta crucial contra as idéias, mas somente podemos fazê-lo com a ajuda das idéias. Não devemos jamais esquecer de manter as nossas idéias em seu papel mediador e impedir que se identifiquem com o real(...) Devemos compreender que, na busca da verdade, as atividades auto-observadoras devem ser inseparáveis das atividades observadoras, as autocríticas inseparáveis das críticas, os processos reflexivos inseparáveis dos processo de objetivação. Necessitamos civilizar nossas teorias, ou seja, desenvolver uma nova geração de teorias abertas, racionais, críticas, relexivas, autocríticas, aptas a se auto-reformar.

O conhecimento do mundo como mundo é uma necessidade ao mesmo tempo intelectual e vital. É o problema universal de toda cidadão no novo milênio: como ter acesso às informações sobre o mundo e como ter a possibilidade de articulá-las e organizá-las? Como perceber e conceber o Contexto, o Global (a relação todo/partes), o Multidimensional, o Complexo? O conhecimento das informações e dos dados isolados é insuficiente. É preciso situar as informações e os dados em seu contexto para que adquiram sentido. Para ter sentido, a palavra necessita do texto, que é o seu contexto, e o texto necessida do contexto no qual se enuncia. Desse modo, a palavra "amor" muda de sentido no contexto religioso e no contexto profano(...) Claude Bastien nota que "A evolução cognitiva não caminha para o estabelecimento de conhecimentos cada vez mais abstratos, mas, ao contrário, para a sua contextualização". O global é mais do que o contexto, é o conjunto das diversas partes ligadas a ela de modo inter-retroativo ou organizacional. Dessa maneira, uma sociedade é mais que um contexto: é o todo organizador de qua fazemos parte. O planeta Terra é mais do que um contexto: é o todo ao mesmo tempo organizador e desorganizador de que fazemos parte. O global tem qualiddes ou propriedades que não são encontradas nas partes, se estas estiverem isoladas umas das outras, e certas qualidades ou propriedades das partes podem ser inibidas pelas restrições provenientes do todo. Marcel Mauss dizia: 'É preciso recompor o todo". É preciso recompor o todo para conhecer as partes. Unidades complexas, como o ser humano ou a sociedade, são multidimensionais: dessa forma, o ser humano é ao mesmo tempo biológico, psíquico, social, afetivo e racional. A sociedade comporta as dimensões histórica, econômica, sociológica, religiosa... O conhecimento pertinente deve reconhecer esse caráter multidimensional e nele inserir estes dados: não apenas não se poderia isolar uma parte do todo, mas as partes umas das outras; a dimensão econômica, por exemplo, está em inter-retroação permanente com todas as outras dimensões humanas; além disso, a economia carrega em si necessidades, desejos e paixões humanas que ultrapassam os meros interesses econômicos. O conhecimento pertinente deve ainda enfrentar a complexidade. O complexo é o que foi tecido junto; há complexidade quando elementos diferentes são inseparáveis, constituem um todo (como o econômico, o político, o sociológico, o psicológico, o afetivo, o mitológico) , e há um tecido interdependente, interativo e inter-retroativo entr o objeto de conhecimento e seu contexto, as partes e o todo, o todo e as partes, as partes entre si. Por isso, a complexidade é a união entre a unidade e a multiplicidade. Os desenvolvimentos próprios da nosso era planetária nos confrontam cada vez mais e de maneira cada vez mais inelutável com os desafios da complexidade. Em conseqüência, a educação deve promover a "inteligência geral" apta a refrir-se ao complexo, ao contexto, de modo multidimensional e dentro da concepção global.

Entramos a partir do século XVI na era planetária, e encontramo-nos desde o final do século XX na fase da mundialização. A mundialização, no estágio atual da era planetária, significa primeiramente, como disse o geógrafo Jacques Levy: "O surgimento de um objeto novo, o mundo como tal". Porém, quanto mais somos envolvidos pelo mundo, mais difícil é para nós apreendê-lo. Na era das telecomunicações, da informação, da internet, estamos submersos na complexidade do mundo, as incontáveis informações sobre o mundo sufocam nossas possibilidade de inteligibilidade. O planeta não é um sistema global, mas um turbilhão em movimento, desprovido de um centro organizador. O planeta exige um conhecimento policêntrico capaz de apontar o universalismo, não abstrato, mas consciente da unidade/diversidade da condição humana; um pensamento policêntrico nutrido de todas as culturas do mundo. Educar para este pensamento é a finalidade da educação do futuro(...) A mundialização é sem dúvida unificadora, mas é preciso acrescentar imediatamente que é também conflituosa em sua essência. A unificação mundializante faz-se acompanhar cada vez mais pelo próprio negativo que ela suscita, pelo efeito contrário: a balcanização. Os antagonismos entre nações, religiões, entre laicização e religião, modernidade e tradição, democracia e ditadura, ricos e pobres, Norte e Sul nutrem-se uns aos outros, e a elas mesclam-se interesses estratégicos e econômicos antagônicos das grandes potências e das multinacionais voltadas para o lucro. São todos esses antagonismos que estão presentes nas zonas ao mesmo tempo de interferências e de fratura, como a grande área sísmica do globo que se inicia na Armênia/Azerbaijão, atravessa o Oriente Médio e vai até o Sudão. Exasperam-se onde existem religiões e etnias misturadas, fronteiras arbitrárias entre Estados -- exasperação de rivalidades e negações de toda ordem, como no Oriente Médio(...) Concebido unicamente de modo técnico-econômico, o desenvolvimento chega a um ponto insustentável, inclusive o chamado desenvolvimento sustentável. É necessária uma noção mais rica e complexa de desenvolvimento, que não seja somente material, mas também intelectual, afetiva, moral...

É necessário ensinar não mais a opor o universal às pátrias, mas unir concentricamente as pátrias -- familiares, regionais, nacionais -- e a integrá-las no universo concreto da pátria terrestre. Não se deve mais continuar a opor o futuro radiante ao passado de servidão e de superstições. Todas as culturas têm virtudes, experiências, sabedorias, ao mesmo tempo que carências e ignorâncias. É no encontro com o seu passado que um grupo humano encontra energia para enfrentar seu presente e preparar o seu futuro. De toda maneira, a era de fecundidade dos Estados-nações dotados de poder absoluto está encerrada, o que significa que é necessário não os desintegrar, mas respeitá-los, integrando-os em conjuntos e fazendo-os respeitar o conjunto do qual fazem parte. O mundo confederado deve ser policêntrico e acêntrico, não apenas política, mas também culturalmente. O Ocidente que se provincializa sente a necessidade do Oriente, enquanto este quer permanecer ocidentalizando-se. O Norte desenvolveu o cálculo e a técnica, mas perdeu qualidade de vida, enquanto o Sul, tecnicamente atrasado, cultiva ainda qualidades de vida. Uma dialógica deve, de agora em diante, complementar Oriente e Ocidente, Norte e Sul. A educação do futuro deve ensinar a ética da compreensão planetária(...)

Os indivíduos são mais do que produtos do processo reprodutor da espécie humana, embora este continue a se produzir a cada geração. As interações entre os indivíduos produzem a sociedade e esta retroage sobre os indivíduos. A cultura, no sentido amplo, emerge dessas interações, reúne-as e confere-lhes valor. Indivíduo/sociedade/espécie sustentam-se, pois, em um sentido pleno: apóiam-se, nutrem-se e reúnem-se. Assim, indivíduo/sociedade/espécie não apenas são inseparáveis, mas co-produtores um do outro. Qualquer concepção do gênero humano significa desenvolvimento conjunto das autonomias individuais, das participações comunitárias e do sentimento de pertencer à espécie humana. Diferentemente das sociedades democráticas que funcionam graças às liberdades individuais e à responsabilidade dos indivíduos, as sociedades autoritárias ou totalitárias colonizam os indivíduos, que não mais mais do que sujeitos; na democracia, o indivíduo é cidadão, pessoa jurídica e responsável; por um lado, exprime seus desejos e interesses, por outro, é responsável solidário com sua cidade. A democracia comporta ao mesmo tempo a autolimitação do poder do Estado pela separação dos poderes, a garantia dos direitos individuais e a proteção da vida privada. Ela evidentemente necessita do consenso da maioria dos cidadãos e do respeito às regras democráticas. Mas, ela necessita também de diversidades e antagonismos. A democracia supõe e nutre diversidades dos interesses, assim como diversidade de idéias. O respeito à diversidade significa que a democracia não pode ser identificada com a ditadura da maioria sobre as minorias; deve comportar o direito à existência e à expressão das minorias e dos contestadores, e deve permitir a expressão das idéias heréticas e desviantes. Do mesmo modo que é preciso proteger a diversidade das espécies para salvaguardar a biosfera, é preciso proteger a diversidade de idéias e opiniões, bem como a diversidade de fontes de informação e de meios de informação (impressa, mídia) para salvaguardar a vida democrática(...) As democracias são frágeis, vivem em conflitos, e estes podem fazê-las submergir. A democracia ainda não está generalizada em todo o planeta, que tanto comporta ditaduras como resquícios do totalitarismo do século XX, quanto germes de novos totalitarismos. Continuará ameaçada no século XXI. Além disso, as democracias existentes não estão concluídas, mas são incompletas ou inacabadas. As democracias do século XXI serão cada vez mais confrontadas com o problema decorrente do desenvolvimento da enorme máquina que associa a ciência, a técnica e a burocracia. Os avanços disciplinares das ciências não trouxeram apenas as vantagens da divisão do trabalho, mas também as inconveniências da hiperespecialização, do parcelamento e da fragmentação do saber. Este tornou-se mais e mais esotérico (acessível apenas aos especialistas) e anônimo (concentrado nos bancos de dados e utilizado por instâncias anônimas, a começar pelo Estado). Nessas condições, o cidadão perde direito ao conhecimento. Tem o direito de adquirir saber especializado e fazer estudos ad hoc, mas é despojado na qualidade de cidadão de qualquer ponto de vista global e pertinente. A arma atômica, por exemplo, retirou por completo do cidadão a possibilidade de pensá-la ou controlá-la. Sua utilização é deixada geralmente à decisão pessoal e única do chefe de Estado, sem consulta a nenhuma instância democrática regular. Quanto mais a política se torna técnica, mais a democracia regride. E o problema invadiu a vida cotidiana: o desenvolvimento da tecnoburocracia instaura o reinado os peritos em áreas que, até então, dependiam de discussões e decisões políticas; ela suplanta os cidadãos nos domínios abertos às manipulações biológicas da paternidade, da maternidade, do nascimento, da morte. Estes problemas, com raras exceções, não entraram na consciência política nem no debate democrático do século XX(...)

Kant já dizia que a finitude geográfica do nosso planeta impõe a seus habitantes o princípio da hospitalidade universal, que reconhece ao outro o direito de não ser tratado como inimigo. Por muito tempo ainda, a expansão e a livre expressão dos indivíduos constituem nosso propósito ético e político para o planeta. Isso supõe ao mesmo tempo o desenvolvimento de uma relação indivíduo/sociedade, no sentido democrático, e o aprimoramento da relação indivíduo/espécie, no sentido de realização da humanidade, ou seja, a permanência integrada dos indivíduos no desenvolvimento mútuo dos termos da triade indivíduo/sociedade/espécie. Não possuímos as chaves que abririam as portas de um futuro melhor. Não temos o caminho traçado. "El camino se hace al andar", disse Antonio Machado. Porém, podemos explicitar nossas finalidades: a busca da hominização na humanização, pelo acesso à cidadania terrena. Por uma comunidade planetária organizada: não seria essa a verdadeira missão da Organização das Nações Unidas?

(Trechos selecionados de MORIN, Edgar. Os sete saberes necessários à educação do futuro. (Relatório feito a pedido da UNESCO). São Paulo, Cortez/Unesco, 2000.)