Educação, um tesouro a descobrir

"Evitai (disse o lavrador) vender a herança
Que de nossos pais veio
Pois ela esconde um tesouro.
Mas ao morrer o sábio pai
Fez-lhes esta confissão:
O tesouro está na educação."
(LA FONTAINE)


Ante os múltiplos desafios do futuro, a educação surge como um trunfo indispensável à humanidade na sua construção dos ideais da paz, da liberdade e da justiça social. Ao terminar os seus trabalhos, esta Comissão faz questão de afirmar a sua crença no papel essencial da educação no desenvolvimento contínuo, tanto das pessoas como das sociedades. Não como um "remédio milagroso"(...) mas como uma via que conduza a um desenvolvimento humano mais harmonioso, mais autêntico, de modo a fazer recuar a pobreza, a exclusão social, as incompreensões, as opressões, as guerras...

Para tal, há que encarar de frente, para ultrapassar, as principais tensões que, não sendo novas, constituem o cerne da problemática do século XXI. A tensão entre o global e o local: tornar-se pouco a pouco cidadão do mundo sem perder as suas raízes e participando, ativamente, na vida do seu país e das comunidades de base. A tensão entre o universal e o singular: a mundialização da cultura vai-se realizando progressiva mas ainda parcialmente. Ela oferece promessa e também riscos, dos quais o menor certamente não é o esquecimento do caráter único de cada indivíduo, de sua vocação para escolher o seu destino e realizar todas as suas potencialidades, mantendo a riqueza de suas tradições e da sua própria cultura ameaçada. A tensão entre tradição e modernidade tem origem na mesma problemática: adaptar-se sem negar a si mesmo, construir a sua autonomia em dialética com a liberdade e a evolução do outro, dominando o progresso científico. A tensão entre as soluções a curto prazo e a longo prazo, tensão eterna, mas alimentada hoje pelo domínio do efêmero e do instantâneo, num contexto onde o excesso de informações e emoções efêmeras leva a uma constante concentração sobre os problemas imediatos. A tensão entre a indispensável competição e o cuidado com a igualdade de oportunidades. Questão clássica proposta já desde o início do século XX, tanto às políticas econômicas e sociais quanto às educativas. Questão em alguns casos resolvida, mas nunca de forma duradoura. Ousamos afirmar que, atualmente, a pressão da competição faz com que muitos responsáveis esqueçam a missão de dar a cada ser humano os meios de poder realizar todas as suas oportunidades. A tensão entre o extraordinário desenvolvimento dos conhecimentos e as capacidades de assimilação pelo ser humano. Finalmente, e trata-se também neste caso de uma realidade permanente, existe a tensão entre o espiritual e o material. Cabe à educação a nobre tarefa de despertar em todos, segundo as tradições e convicções de cada um, respeitando integralmente o pluralismo, esta elevação do pensamento e do espírito para o universal e para uma espécie de superação de si mesmo.

O conceito de educação ao logo de toda a vida aparece, pois, como uma das chaves de acesso ao século XXI. Ultrapassa a distinção tradicional entre educação inicial e educação permanente. Vem da resposta ao desafio de um mundo em rápida transformação(...) a fim de se estar preparado para acompanhar a inovação, tanto na vida privada como na vida profissional. É uma exigência que só ficará satisfeita quando todos aprendermos a aprender. Mas a modificação profunda nos quadros tradicionais da existência humana coloca-nos perante o dever de compreender melhor o outro, de compreender melhor o mundo. Esta tomada de posição levou esta Comissão a dar mais importância a um dos quatro pilares considerados como as bases da educação. Trata-se de aprender a viver juntos, desenvolvendo o conhecimento acerca dos outros, da sua história, tradições e espiritualidade. Contudo, não se esquece dos outros três pilares da educação, que fornecem de algum modo os elementos básicos para aprender a viver juntos. Em primeiro lugar, aprender a conhecer. Em seguida, aprender a fazer. Finalmente e acima de tudo, aprender a ser(...)

A educação deve transmitir, de fato, de forma maciça e eficaz, cada vez mais saberes e saber-fazer evolutivos, adaptados à civilização cognitiva, pois são as bases das competências do futuro. Simultaneamente, compete-lhe encontrar e assinalar as referências que impeçam as pessoas de ficar submergidas nas ondas de informações, mais ou menos efêmeras, que invadem os espaços públicos e privados e as levem a orientar-se para projetos de desenvolvimento individuais e coletivos. À educação cabe fornecer, de algum modo, os mapas de um mundo complexo e constantemente agitado e, ao mesmo tempo, a bússola que permita navegar através dele. Nesta visão uma resposta puramente quantitativa -- uma bagagem escolar cada vez mais pesada -- já não é possível e nem mesmo adequada. Não basta que cada um acumule uma determinada quantidade de conhecimentos. É antes necessário estar à altura de aproveitar e explorar, do começo ao fim da vida, todas as ocasiões de atualizar, aprofundar e enriquecer estes primeiros conhecimentos, e de se adaptar a um mundo em mudança(...) Como regra geral, o ensino formal orienta-se essencialmente, se não exclusivamente, para o aprender a conhecer e, em menor escala, para o aprender a fazer. Ora, pensamos que cada um daqueles quatro pilares do conhecimento deve ser objeto de atenção igual por parte do ensino estruturado. Isso supõe que se ultrapasse a visão puramente instrumental da educação, considerada como a via obrigatória para obter certos resultados (saber-fazer, aquisição de capacidades diversas, fins de ordem econômica), e se passe a considerá-la em toda a sua plenitude: realização da pessoa que, na sua totalidade, aprende a ser.

Aprender a conhecer: este tipo de aprendizagem não visa tanto a aquisição de um repertório de saberes codificados, mas antes o domínio dos próprios instrumentos do conhecimento, que deve ser considerado como um meio e uma finalidade da vida humana. Um meio porque se pretende que cada um aprenda a compreender o mundo que o rodeia, pelo menos a medida em que isso lhe é necessário para viver dignamente, para desenvolver as suas capacidades profissionais, para comunicar. E finalidade porque seu fundamento é o prazer de compreender, de conhecer, de descobrir. Aprender a conhecer supõe antes de tudo aprender a aprender, exercitando a atenção, a memória e o pensamento. O exercício do pensamento ao qual a criança é iniciada pelos pais, em primeiro lugar, e pelos professores, em seguida, deve comportar avanços e recuos entre o concreto e o abstrato. Também se devem combinar, tanto no ensino quanto na pesquisa, dois métodos apresentados muitas vezes como antagônicos: o dedutivo e o indutivo, pois na maioria das vezes o pensamento necessita da combinação dos dois.

Aprender a fazer: normalmente se considera isto como uma adaptação da educação à formação profissional. Mas como fazer isso hoje em dia quando não se pode mais prever qual será a evolução do mercado de trabalho? Na indústria, especialmente para os operadores e os técnicos, o domínio do cognitivo e do informativo nos sistemas de produção torna um pouco obsoleta a noção de qualificação profissional e leva a que se dê uma maior importância à competência pessoal. As tarefas puramente físicas são substituídas por tarefas de produção mais intelectuais, mais mentais, como o comando de máquinas, a sua manutenção e vigilância, ou por tarefas de concepção, de estudo, de organização à medida que as máquinas se tornam mais "inteligentes" e que o trabalho se "desmaterializa". Qualidades como a capacidade de comunicar, de trabalhar com os outros, de gerir e de resolver conflitos tornam-se cada vez mais importantes. E esta tendência torna-se ainda mais forte devido ao desenvolvimento do setor de serviços.

Aprender a viver juntos, aprender a viver com os outros: esta aprendizagem representa, hoje em dia, um dos maiores desafios da educação. O mundo atual é, muitas vezes, um mundo de violência que se opõe à esperança posta por alguns no progresso da humanidade. Até agora a educação não pôde fazer grande coisa para modificar esta situação. Poderemos conceber uma educação capaz de evitar os conflitos ou de os resolver de maneira pacífica, desenvolvendo o conhecimento dos outros, das suas culturas, da sua espiritualidade? A tarefa é árdua, porque, muito naturalmente, os seres humanos têm a tendência a supervalorizar as suas qualidades e as do grupo a que pertencem, e a alimentar preconceitos desfavoráveis em relação aos outros. A educação deve utilizar duas vias complementares. Num primeiro nível, a descoberta progressiva do outro. Num segundo nível, ao longo de toda a vida, a participação em projetos comuns, que parece um método eficaz para evitar ou resolver conflitos latentes. A educação tem por missão, por um lado, transmitir conhecimentos sobre a diversidade da espécie humana e, por outro, levar as pessoas a tomar consciência das semelhanças e da interdependência entre todos os seres humanos do planeta. Algumas disciplinas estão mais adaptadas a este fim, em particular a geografia humana desde o ensino básico e as línguas e literaturas estrangeiras mais tarde(...) Os professores que, por dogmatismo, matam a curiosidade ou o espírito crítico dos seus alunos, em vez de os desenvolver, podem ser mais prejudiciais do que úteis. O confronto através do diálogo e da troca de argumentos é um dos instrumentos indiepensáveis para a educação do século XXI.

Aprender a ser: a educação deve contribuir para o desenvolvimento total da pessoa -- espírito e corpo, inteligência, sensibilidade, sentido estético, responsabilidade pessoal, espiritualidade. Todo o ser humano deve ser preparado, especialmente graças à educação que recebe na juventude, para elaborar pensamentos autônomos e críticos e para formular os seus próprios juízos de valor, de modo a poder decidir, por si mesmo, como agir nas diferentes circunstâncias da vida. Mais do que preparar as crianças para uma dada sociedade, o problema será, então, fornecer-lhes constantemente forças e referências intelectuais para lhes permitir compreender o mundo que as rodeia e comportar-se nele como atores responsáveis e justos. Num mundo em mudança, de que um dos principais motores parece ser a inovação tanto social como econômica, deve ser dada importância especial à imaginação e à criatividade(...)

Os meios de comunicação, seja qual for o juízo que se faça sobre a qualidade de seus produtos, fazem parte integrante do nosso espaço cultural, no sentido mais amplo do termo. Os seus objetivos não são, necessariamente, de ordem educativa, mas têm um poder de sedução bem real, e é importante levar isso em conta. É importante que os professores formem, desde já, os alunos para uma "leitura crítica" que os leve, por si mesmos, a usar a televisão como instrumento de aprendizagem, fazendo a triagem e hierarquizando as múltiplas informações transmitidas. É preciso insistir sempre nesta finalidade essencial da educação: levar cada um a cultivar as suas aptidões, a formular juízos e, a partir daí, a adotar comportamentos livres.

(Excertos extraídos, com adaptações, de Educação, um tesouro a descobrir. Relatório para a Unesco da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. São Paulo, Unesco/MEC/Cortez, 1998;original, em francês, de 1996).