ENTREVISTA PARA O JORNAL O ESTADO DE MINAS 

(Publicada no caderno Pensar, sábado, 03/07/2004)*

Sobre o livro: O ensino da geografia no século XXI. Editora Papirus, Campinas, 2004, 268 pgs.

 

Esse livro, na realidade uma coletânea com artigos de vários autores, foi organizado por José William Vesentini, que é Doutor e Livre-Docente em Geografia pela USP, Universidade de São Paulo. Atualmente exerce a função de professor e pesquisador do Departamento de Geografia da FFLCH da USP. Suas temáticas principais de pesquisa e docência, inclusive na orientação de mestrandos e doutorandos, são o Ensino da Geografia e a Geografia política/geopolítica. Públicos inúmeros artigos em revistas especializadas e vários livros, dentre os quais A Capital da geopolítica (SP, Ática, 1987), Geografia, natureza e sociedade (SP, Contexto, 1989), Novas geopolíticas (SP, Contexto, 2000) e Nova Ordem, Imperialismo e Geopolítica global (Campinas, Papirus, 2003), além da organização desta coletânea recém-lançada, O ensino da geografia no século XXI (Campinas, Papirus, 2004). Além dessas obras acadêmicas, publicou também alguns livros didáticos pioneiros e inovadores no ensino da geografia: Sociedade e espaço (SP, Ática, 1982, com nova edição reformulada em 2004), a coleção Geografia crítica (4 volumes, em co-autoria com Vânia Vlach, SP,, Ática, 1988, com nova edição reformulada em 2004), além de outros. 

 

P) Você poderia falar um pouco do título do livro: "O Ensino da Geografia no século XXI". É ou vai ser diferente do ensino no século XX? 

R: O título do livro é uma tentativa de síntese, pois existem vários textos com diferentes autores, cada um deles analisando a realidade e as perspectivas do ensino da geografia nesta primeira década do século XXI, em seis países selecionado: Estados Unidos, França, Portugal, Espanha, México e Brasil. É evidente – em face das radicais mudanças que vêm ocorrendo no sistema escolar, no mercado de trabalho, na concepção de cidadania e na própria geografia escolar – que o ensino desta disciplina no século XXI vai ser bem diferente daquele que prevaleceu no século XX, e que, em parte, ainda continua a ser implementado, em especial em certos países ou regiões mais atrasados. Em suma, é um livro que analisa e permite comparar a situação vigente nesses seis países, além de haver também um texto que aborda a questão do estudo do meio, algo cada vez mais importante no ensino em geral e na geografia escolar em particular.

 

P) Na organização do livro que aspectos você procurar ressaltar?

R: O aspecto essencial que procurei ressaltar nesta antologia é a resposta que o ensino da geografia vem dando em diferentes Estados nacionais, embora em todos eles com um desafio básico em comum, que é o de adaptar ou reformular o sistema escolar – e, conseqüentemente, o ensino da geografia – em função do novo papel da escola na sociedade, ou seja, as suas relações com a cidadania – que também se redefine com a globalização e com a criação/expansão de novos direitos: das mulheres, das crianças e dos idosos, de minorias étnicas ou de orientação sexual, de um ambiente sadio, etc. – e com o mercado de trabalho, exatamente quais tipos de potencialidades (raciocínio lógico, sociabilidade, inteligência emocional, criatividade, espírito crítico, etc.), de habilidades e de competências, ela deve procurar desenvolver nos educandos, que tipo de relações ela deve manter com as comunidades nas quais existe e das quais é parte integrante. 

 

P) Pode falar um pouco do espírito que regeu a escolha dos autores que assinam os textos?

R: Escolhi e convidei cada autor tendo-se em vista dois critérios principais. O primeiro foi a seleção dos países. Como o Brasil evidentemente não podia ficar fora (pelo contrário, existem dois textos, e não apenas um, sobre a geografia escolar no Brasil), e seria impraticável ou quase impossível abordar todos os países do globo, mesmo os mais importantes de cada grande região. Assim, optamos pelos Estados Unidos e pela França pela razão, óbvia para os geógrafos brasileiros, que foram as duas “escolas nacionais de geografia” que maior influência exerceram e ainda exercem sobre a nossa produção geográfica, inclusive no ensino. E o México foi selecionado pelo fato de ser o segundo país mais importante da América Latina (em população e economia) – talvez até ele esteja se tornando no primeiro –, justamente a nossa região no globo. E Portugal e Espanha foram selecionados devido ao fato de terem sido as antigas metrópoles nesta região do globo, nações que aqui deixaram profundas marcas culturais, e também em face da crescente influência cultural e econômica (basta ver os investimentos produtivos) que vêm exercendo no Brasil, incluindo-se aqui a geografia (os intercâmbios entre pesquisadores de universidades brasileiras e ibéricas vêm aumentando bastante nos últimos anos, a participação deles em Encontros ou Congressos científicos, culturais e educacionais aqui no Brasil tem sido significativa, e vice-versa). 

E o outro critério de seleção foi o currículo de cada autor: todos eles são professores universitários, têm doutorado em geografia e, mais importante ainda, possuem experiências em sala de aula e hoje trabalham com a geografia escolar como pesquisadores e/ou assessores, participam ativamente dos Encontros de docentes nos seus países, e no final das contas são importantes interlocutores nas discussões – que já ocorreram ou que vêm ocorrendo – sobre as mudanças no ensino de geografia em cada uma dessas realidades nacionais.

 

P) Que desafios estão postos, na sua opinião, para o ensino de geografia? Ela esta "desaparecendo" como ciência?

R: O mundo de hoje impõe vários desafios às ciências em geral, ao sistema escolar e à geografia. Um deles são as alterações tanto demográficas (maior expectativa de vida, maior crescimento da faixa etária dos idosos e uma proporção cada vez menor de jovens na população total de cada país, em especial naqueles economicamente avançados) como no mercado de trabalho, que demanda novas atitudes ou potencialidades dos funcionários (a flexibilidade, a capacidade de tomar decisões e de liderar, a criatividade, a inteligência emocional e não apenas a racional como no passado, um crescente nível de escolaridade, que não se confunde mais com o diploma e sim com a capacidade de aprender a aprender, de se reciclar constantemente, de se manter atualizado, etc.).

Outro desafio é a globalização ou a crescente interdependência entre todos os povos e Estados em vários aspectos da vida social: na economia, na cultura, na dimensão dos problemas ambientais e, em parte, até mesmo na política e na concepção de cidadania. Ao mesmo tempo em que une, a globalização também gera ou agrava determinadas tensões (desigualdades internacionais, choques de culturas ou civilizações, expansão dos fundamentalismos e das redes terroristas, etc.). Isso é particularmente impactante na geografia porque afinal de contas ela é a ciência humana ou social voltada para a compreensão do espaço onde a humanidade vive e no qual produz modificações. Daí ocorrer não um esvaziamento da geografia, como se pensava nos anos 1970, mas sim uma crescente revalorização. Basta pegarmos os jornais dos últimos dias, por exemplo, ou a declaração de importantes autoridades (presidentes de Estados, de organizações internacionais, notórios assessores militares ou econômicos de grandes potências, etc.), que logo observaremos que hoje mais do que nunca são usados conceitos geográficos para tentar explicar o nosso mundo e as suas mudanças (reais ou ideais): fala-se numa nova “geografia do comércio”, uma nova “geopolítica dos países não desenvolvidos”, numa geoeconomia estratégica, que comandará os grandes conflitos do século XXI, etc. Como se fala também, mais do que em qualquer outro período histórico, nas relações entre a sociedade e a natureza, em particular nas questões ambientais.

Em razão disso tudo, a ciência geográfica – e notadamente o seu ensino – vem adquirindo uma importância cada vez maior neste novo século. Só para mencionar o exemplo dos Estados Unidos, a maior potência econômica e militar do planeta, podemos lembrar que o Congresso Nacional, em Washington, realizou em junho de 1987 uma "Semana de conscientização geográfica" [Geography Awareness Week], algo que não ocorreu com a matemática e sequer com o inglês. Nessa semana, senadores, deputados e outras autoridades norte-americanas falaram sobre a importância da população do país aprender mais geografia, algo que resultou no início dos anos 1990 numa completa reformulação do sistema escolar daquele país, com novos standards ou “parâmetros”, com o final da disciplina “estudos sociais” e um maior número de aulas de geografia e de história, agora lecionadas separadamente, por semana.

Mencionando apenas uma das inúmeras falas dessa Semana, reproduzimos aqui um trecho do discurso do senador Edward Kennedy: "Todos nós no Congresso imaginamos que é de vital importância melhorar nosso sistema educacional se quisermos manter a nossa posição competitiva na economia mundial. Como parte desse esforço, nós devemos nos assegurar que os jovens americanos tenham uma clara compreensão sobre como o mundo é e quais são as influências humanas geograficamente positivas".

Podemos lembrar ainda do depoimento de um diretor da importante rede norte-americana de supermercados Wall-Mart, que afirmou que no início as suas lojas conheceram um enorme prejuízo no Brasil porquê eles desconheciam a nossa realidade: abarrotaram as suas lojas com tacos de basebol, com equipamentos para esquiar, etc. Existem ainda inúmeros outros exemplos de negócios mal sucedidos em função de uma profunda carência de conhecimentos geográficos a respeito dos traços fisiográficos e sociais dos "outros", ou seja, de uma geografia renovada ou crítica, que leve o leitor a relacionar os conhecimentos, a discernir as informações confiáveis dentro do oceano de propaganda e informações superficiais ou enviesadas que recebemos a cada dia, enfim, que ajude o educando a conhecer criticamente o meio em que vive e os demais países do mundo.

 

P) Que impacto tem sobre a geografia questões postas pela ecologia, pela explosão das grandes metrópoles, pela migração em massa etc?

R: Todas essas questões exercem o seu impacto sobre a geografia, como também sobre várias outras ciências, talvez até a totalidade delas. Mas não são questões ou imperativos completamente novos, pois afinal de contas a geografia já estuda há muito tempo as migrações internacionais e inter-regionais, os migrações pendulares (isto é, os deslocamentos diários de trabalhadores de suas residências até o local de trabalho e vice-versa) e todos os demais temas a eles interligados: a questão dos transportes, da alocação das atividades econômicas no espaço, da moradia, dos preconceitos contra os migrantes, etc. Daí ser comum se convidarem geógrafos quando alguma instituição internacional realiza algum Congresso ou Encontro científico, que terá conseqüências práticas nas ações políticas, sobre todos esses temas.

Também a ecologia no sentido lato do termo – isto é, como questão interdisciplinar, abordada por várias ciências: biologia, oceanografia, química, geografia, sociologia, etc. – é um campo de estudos no qual a geografia há tempos vem se ocupando, tendo inúmeras contribuições importantes e reconhecidas internacionalmente sobre alguns aspectos dessa problemática. O mesmo podemos afirmar do problema das metrópoles e também de várias outras questões candentes do nosso tempo e que sempre contaram com um determinado olhar, uma determinada perspectiva geográfica, que até hoje continua a ser essencial, talvez mais até do que há algumas décadas: a geopolítica, as relações internacionais, os impactos ambientais de grande obras humanas, a problemática da conservação e da preservação da natureza e dos patrimônios culturais, etc.

 

P) Como você vê e a que atribui o interesse dos jovens pela Geografia (me disseram que, atualmente, no vestibular, é uma área que atrai muitos candidatos)? 

R: Creio que ainda existe um interesse relativamente pequeno, apesar dele ter aumentado nos últimos anos. Mas isso varia muito de um lugar para outro. Na Fuvest, por exemplo, que faz o vestibular para a USP, o número de candidatos por vaga no curso de geografia, em 2004, foi de 11 (170 vagas oferecidas e 1.830 candidatos), algo mediano, bem menor do que os cursos intensamente disputados (Medicina, jornalismo, direito), que tiveram mais de 25 ou 40 candidatos por vaga, mas por outro lado maior do que certos cursos que, mesmo oferecendo pouquíssimas vagas (de 30 a no máximo 50), tiveram menos do que 5 candidatos por vaga (geologia, artes plásticas, licenciatura em química e outros). Se compararmos com o passado, não há dúvida que a procura pelo curso de geografia aumentou, embora não naquele ritmo desenfreado que ocorreu com os cursos de jornalismo, editoração, turismo, etc., que tinham uma procura baixíssima há uns 20 anos e hoje estão entre os campeões de inscrições por parte dos vestibulandos.

Penso que esse aumento, mesmo que relativamente pequeno, na procura pelo curso de geografia se deve, em grande parte, a uma nova percepção desta ciência por parte dos alunos do ensino médio, que antes imaginavam – e, em parte, ainda imaginam – a geografia como uma disciplina mnemônica, onde somente se memorizam fatos, na qual os temas estudados eram vistos de forma isolada e compartimentada (clima, relevo, população, cidades), mas hoje percebem que a geografia é um estudo explicativo, que inter-relaciona temas diversos, tanto da natureza quanto principalmente da sociedade, e que é cada vez mais valorizada com a globalização e a necessidade de os cidadãos conhecerem as características e os problemas do seu local de vivência, do seu país e do mundo como um todo.

Mas por outro lado não podemos esquecer que o principal mercado de trabalho do geógrafo hoje em dia ainda é o ensino, apesar de ter havido uma expansão no trabalho do geógrafo profissional, aquele que exerce atividades ligadas ao planejamento, à avaliação de impactos ambientais, à preservação de patrimônios, ao Sistema de Informações Geográficas, etc. E infelizmente o professorado no Brasil é extremamente desvalorizado, os salários em geral são baixíssimos, algo provavelmente sem paralelos em todo o mundo. Conheci professores de geografia em Foz de Iguaçu que todos os dias atravessam a ponte para lecionar no Paraguai, onde as escolas públicas e até algumas particulares pagam muito mais do que as brasileiras! Isso faz com que todas as carreiras tradicionalmente identificadas com o magistério – não só a geografia, mas também a pedagogia, a história, a matemática, as letras, etc. – tenham uma procura menor do que deveriam, tendo-se em vista que muitos alunos do ensino médio adoram geografia mas acabam optando por uma carreira que “dê dinheiro”, o mesmo ocorrendo com a matemática (eles vão fazer engenharia e quase nunca matemática pura) e também com as demais disciplinas mencionadas.

 

P) Desculpe a pergunta excessivamente genérica: como você avalia o ensino de geografia no Brasil? O que considera positivo e o que sente como problema?

R: O ensino da geografia no Brasil, em nossos dias, passa por uma fase de transição de uma geografia tradicional e descritiva, alicerçada no paradigma “A Terra e o Homem”, para uma geografia crítica que procura explicar as relações entre a sociedade e o seu espaço, que procura levar o educando a conhecer o mundo em que vive em todas as suas escalas geográficas (o lugar, o Estado, a região, o país, o mundo), que procura interligar, evidenciar as relações recíprocas entre todos os temas que aborda e que, principalmente, está cada vez mais preocupada com a interdisciplinaridade, com temas transversais e com o desenvolvimento das habilidades e das competências dos alunos.

Esse ensino vive, por um lado, uma fase rica e inovadora, com novas experiências na sala de aula (ou fora dela, com os estudos do meio), novos manuais ou compêndios escolares, que são bem melhores que os do passado. Mas por outro lado, como não podia deixar de ser, ele também se vê prejudicado ou atravancado pela enorme série de problemas que desde pelo menos o final dos anos 1960 – quando a ditadura militar reformulou para pior o nosso sistema educacional, do ponto de vista da qualidade (inclusive e principalmente na preparação e na remuneração do professor), embora tenha ocorrido uma expansão quantitativa – vêm perdurando e até se expandindo na educação brasileira.

Podemos dizer que em boa parte não existe um ensino de qualidade – não só na geografia mas também em todas as demais disciplinas escolares – devido à extrema desvalorização da carreira docente e da própria atividade educativa no Brasil: jovens ou crianças que precisam trabalhar para ajudar suas famílias, existe uma generalizada carência de equipamentos básicos nas escolas (projetores multimídia, computadores, laboratórios diversos, mapas, etc., e às vezes até um simples quadro-negro com giz), falta de livros didáticos (seja porque as famílias não têm dinheiro para comprar, seja porque o livro escolhido pelos professores de uma escola pública não chegou lá, seja porque a escola deixou de usar livros didáticos para ingressar no comércio das apostilas, que via de regra são cópias empobrecidas dos compêndios), além da crescente escassez de professores qualificados (em geografia, por exemplo, mais da metade dos docentes que lecionam atualmente, pelo menos em São Paulo, onde já pesquisei esse assunto, não possuem a formação específica na disciplina, ou seja, são advogados, seminaristas, geólogos, economistas, estudantes de direito ou de engenharia, etc.).

Essa ausência de um ensino de qualidade – não apenas nas escolas públicas em geral, salvo algumas “ilhas de excelência”, como também na imensa maioria das particulares –, é bom ressaltar, tem sérias conseqüências do ponto de vista do desenvolvimento sustentável e da qualidade de vida da população nacional. Já está mais do que evidenciado que a educação hoje, em plena época da Terceira Revolução Industrial, é a chave do futuro, que os “recursos humanos ou o chamado “poder cerebral” é algo muito mais importante do que os recursos naturais e até mesmo do que os financeiros. Todos os países que se desenvolveram nas últimas décadas, repito todos – desde Cingapura até a Coréia do Sul, Taiwan, Hong Kong, etc. –, fizeram isso com base principalmente na expansão (quantitativa e qualitativa) do ensino público e gratuito de boa qualidade para toda a população, com uma maior escolarização ou qualificação da sua força de trabalho. E isso sem ficar inventando fórmulas ou paliativos – tais como a aprovação automática ("progressão continuada") e coisas do gênero –, que somente disfarçam a questão, mantendo o baixo nível do ensino e manipulando as estatísticas, ou seja, promovendo analfabetos funcionais até o final do ensino médio. Em todos esses países mencionados, proibiu-se o trabalho de menores de idade e aboliu-se o ensino noturno, que é sempre de curta duração, sendo que os estudantes passam de 7 até 9 horas por dia na escola, inclusive aos sábados em países como o Japão e a Coréia. E o salários dos professores, como também a sua qualificação, em todos esses países, foi bastante ampliado, inclusive em termos relativos (ou seja, comparando com outras profissões), nas últimas décadas. O piso salarial de um professor no Japão, por exemplo é de 4 mil dólares e em Cingapura um professor do ensino médio, com 30 horas/aula por semana (e no máximo 30 alunos por sala de aula), ganha mais de 5 mil dólares ao mês, enquanto que aqui no Brasil esse mesmo professor vai lecionar mais de 40 horas/semana (e ainda por cima em classes que às vezes têm 60 alunos), para ganhar em média somente uns 300 dólares. A educação – até mais do que a saúde, a melhor distribuição da renda social e da terra, o combate à corrupção, aos nepotismos e aos corporativismos, etc., outras grandes questões nacionais, essenciais para o seu futuro – é o maior desafio brasileiro neste novo século, é o ponto nevrálgico que vai (ou não) fazer com que o país caminhe para de fato se tornar numa sociedade de Primeiro Mundo.

 

P) Como você vê a obra de Milton Santos?

R: Não sei se vale a pena falar sobre a obra do saudoso geógrafo Milton Santos nesta entrevista na qual enfocamos o ensino da geografia no século XXI. Já escrevi um texto – e o coloquei no meu site na internet para leitura dos interessados** –, no qual, entre outras coisas, faço uma avaliação sobre a importância da sua obra para a geografia brasileira. Não vou me alongar muito aqui, mas apenas reafirmar que Santos teve uma repercussão muitíssimo maior na mídia do que na renovação geográfica; no que se refere à geografia escolar, então, não há qualquer dúvida que a sua influência foi e é insignificante, e é exatamente por isso – e não malgrado isso – que temos experiências tão inovadoras, que unem o sócio-construtivismo com uma geografia crítica plural e democrática.

Milton Santos retornou ao Brasil no final dos anos 1970, após um exílio voluntário, e trouxe com ele, através de inúmeras publicações e cursos ou orientações de alunos, uma visão estruturalista influenciada pelo marxismo althusseriano (ou seja, de Luis Althusser e discípulos, tão em moda na Paris da primeira metade dos anos 70), sendo que aqui no Brasil nós já havíamos superado essa leitura do marxismo e até mesmo toda essa visão tradicional sobre o pensamento socialista ou de “esquerda” em geral, pois inúmeros intelectuais brasileiros tinham escrito profundas críticas ao althusserianismo (José Arthur Giannoti, por exemplo), o importante texto de E. P. Thompson que evidenciou o stalinismo insidioso que existe na leitura althusseriana do marxismo era amplamente conhecido e, mais do que isso, já trabalhávamos com outros autores, críticos embora não-marxistas, na geografia crítica brasileira (Foucault, principalmente, e também Claude Lefort, Cornelius Castoriadis e outros, que Santos nunca incorporou no seu esquematismo teórico, provavelmente porque isso implicaria numa “implosão” do seu edifício conceitual fechado e alicerçado na idéia de totalidade). Mesmo quando citava Henri Lefèbvre, outro autor que desancou com veemência o althusserianismo, Santos aproveitava uma ou outra coisa desse autor (como a “produção do espaço”), mas sempre encaixando todas essas idéias ou noções no seu edifício estrutural, na sua leitura althusseriana de “instâncias” e de “formação sócio-espacial”.

Todavia, cabe reiterar que Santos foi um ótimo diplomata para a geografia brasileira, alguém que conseguiu um enorme espaço na mídia e que talvez tenha contribuído, pelo menos em parte, para fazer com que o público em geral – ou pelo menos uma parcela dele, aquela que lê jornais e revistas de boa qualidade – deixasse de identificar a geografia com aquela disciplina maçante e aparentemente sem utilidade que eles estudaram nos anos 1960 ou 70. Isso já é um grande feito.

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(* Entrevista publicada parcialmente, como é comum em jornais e revistas. Transcrevo aqui a íntegra dela tal como o repórter me mandou por e-mail antes da publicação)

**Este hipertexto mencionado encontra-se neste site, em formato zip. Caso queira baixa-lo, clique aqui: Geocrítica/Brasil.