GEOGRAFIA CRÍTICA

Autores: José William Vesentini e Vânia Vlach
Editora Ática
Coleção: Geografia Crítica - 4 volumes
Formato: 20,2x27,5
Páginas: 184 (vol.1), 160 (vol.2), 248 (vol.3) e 152 (vol.4).

 

Esta coleção, cuja primeira edição foi publicada em julho de 1987, teve como proposta básica a introdução da geografia crítica nos manuais de 5a. à 8a. séries e a interligação desta nova geografia escolar com o sócio-construtivismo inspirado em Piaget e Vygotsky (ver as citações abaixo).

Os conceitos geográficos são transmitidos por via da relação com a realidade cotidiana do educando, pelo chamamento à experiência e às situações práticas. Por exemplo: solicita-se uma reflexão sobre o espaço (ou lugar) de morada de cada um, com os seus diversos níveis, antes de se explicar o que é espaço geográfico; pede-se para os alunos desenharem uma sala de aula, refletirem sobre as diferenças entre o tamanho do desenho e a realidade, antes de se explicar o que são mapas e escalas.

O volume 1 aborda o espaço natural e a ação humana (além da cartografia), o volume 2 enfoca o espaço social e o espaço brasileiro, e os volumes 3 e 4 estão voltados para o estudo da realidade mundial, dos grandes conjuntos regionais do globo. O volume 3 discute o que significa regionalizar a superfície terrestre, abordando ainda o mundo subdesenvolvido (América Latina, África e Ásia menos Japão e CEI), e o volume 4 enfoca o mundo industrializado (a Europa e a CEI, a América Anglo-saxônica, o Japão, a Austrália e a Nova Zelândia).

Como se vê, trata-se de uma sequência diferente da geografia tradicional, que aborda os continentes, com ênfase na América, sem discutir seriamente o que significa regionalizar o mundo e omitindo o fato de que o espaço geográfico não é meramente físico ou "continental" e sim social ou (re)construído pela ação humana. Além disso, o conteúdo de cada volume tem várias inovações frente às abordagens tradicionais.

No volume 1, por exemplo, há um estudo dos processos naturais onde eles sempre são vistos em si, nas suas dinâmicas próprias (que de fato existem, malgrado a opinião -- ou o dogma? -- de alguns poucos geógrafos acadêmicos de inspiração marxista) e também nas suas relações com a sociedade; desenvolve-se aí uma idéia de paisagem como conjunto e como realidade complexa, na qual esses elementos ou processos são interligados e ao mesmo tempo mudam no espaço e no tempo.

No volume 2 há um estudo do espaço social -- o espaço geográfico e sua (re) construção permanente, o Estado, a economia, a população em suas múltiplas dimensões -- e do Brasil com ênfase em suas regiões (como regionalizar o espaço brasileiro, a Amazônia, o Nordeste e o Centro-sul).

Nos volumes 3 e 4, como já mencionamos, discute-se a regionalização do espaço mundial e em seguida estuda-se o mundo subdesenvolvido (o Sul) e o mundo industrializado ou desenvolvido (o Norte), sem nenhum esquema prévio -- do tipo "o quadro natual, a população e a economia" --, mas com diferentes sequências de acordo com a realidade e com a necessidade de motivação dos educandos: a unificação européia, o subdesenvolvimento e o autoritarismo na América Latina, o sistema de castas e o hinduismo na Índia, a civilização chinesa, os "tigres asiáticos", a precariedade dos Estados-nações na África subsaariana, o "modelo japonês" e os seus impasses atuais, etc.

Idéias que, juntamente com a experiência docente dos autores, inspiraram a elaboração da coleção:

"O primeiro objetivo da educação é criar pessoas capazes de fazer coisas novas, e não simplesmente repetir o que outras gerações fizeram -- pessoas criativas, inventivas e descobridoras. O segundo objetivo da educação é formam mentes que possam ser críticas, possam verificar e não aceitar tudo o que lhes é oferecido. O maior perigo, hoje, é o dos slogans, opiniões coletivas, tendências de pensamento ready-made. Temos que estar aptos a resistir (...) a criticar, a distinguir entre o que está demonstrado e o que não está. Portanto, precisamos de discípulos ativos, que aprendam a encontrar as coisas por si mesmos, em parte por sua atividade espontânea e, em parte, pelo material que preparamos para eles." (JEAN PIAGET)

"Embora os conceitos científicos e os espontâneos se desenvolvam em direções opostas, os dois processos estão intimamente relacionados. É preciso que o desenvolvimento de um conceito espontâneo tenha alcançado um certo nível para que a criança possa absorver um conceito científico correlato. Por exemplo, os conceitos históricos só podem começar a se desenvolver quando o conceito cotidiano que a criança tem do passado estiver suficientemente diferenciado -- quando a própria vida e a vida dos que a cercam puder adaptar-se à generalização elementar 'no passado e agora'; e os seus conceitos geográficos e sociológicos devem se desenvolver a partir do esquema simples 'aqui e em outro lugar'(...) Os conceitos científicos desenvolvem-se para baixo por meio dos conceitos espontâneos [isto é, através das suas ligações com a vida cotidiana do aluno]; os conceitos espontâneos desenvolvem-se para cima por meio dos conceitos científicos". (LEV VYGOTSKY)