BRASIL, SOCIEDADE E ESPAÇO, cuja primeira edição ocorreu em julho de 1984, foi o primeiro livro didático sobre o Brasil a incorporar a chamada geografia escolar crítica.

Todos os manuais anteriores, sobre geografia do Brasil, adotavam o esquema "a Terra e o Homem", ou seja, começavam com a parte física e depois escreviam sobre a população e a economia, numa sequência pré-determinada de assuntos: tamanho do território e localização, fusos horários, relevo, clima, vegetação, hidrografia, população, meio rural, cidades, indústria, transporte, comércio e, às vezes, planejamento. Enfim, inclusive os melhores manuais do período ainda reproduziam uma geografia tradicional quando tratavam da realidade brasileira. Uma geografia voltada mais para a memória e que pouco motivava os educandos.

Esta obra inovou, tanto no conteúdo quanto na forma de exposição e na maneira de se comunicar com os leitores, isto é, com os alunos do ensino médio. (É evidente que, após ela ter feito sucesso, quase todos os autores anteriores passaram a reformular as suas obras com vistas a incorporar alguma coisa que também os diferenciasse, ao menos em parte, do tradicional; mas isso é absolutamente normal -- desde que não resulte, e na maioria dos casos não resultou, em plágio puro e simples -- e inclusive motivo de orgulho na medida em que contribui para renovar o ensino da geografia. Ressalte-se também que os compêndios de geografia do Brasil que existiam até 1984 não eram exatamente iguais, apesar de usarem um esquema comum: havia os mais descritivos e mnemônicos e alguns poucos que tentavam, dentro desse modelo tradicional, incluir algum tema novo, geralmente com um linguajar acadêmico, e um mínimo de criticidade nos moldes da "escola georgeana" de geografia).

No conteúdo, em primeiro lugar este livro ou compêndio uma nova sequência de temas, inclusive com a incorporação de novos assuntos/problemas, que anteriormente eram omitidos nas demais obras do gênero. Ao invés de iniciar com aquelas informações (chatíssimas para os adolescentes) sobre o território (como se o Brasil fosse a terra!), sua localização e características, começa-se com uma questão motivadora para o educando: o Brasil como um país subdesenvolvido e industrializado (algo que, aparentemente, contraria ou contrariava o senso comum), o que imediatamente prende a atenção do leitor e faz este perceber que este estudo é estimulante e tem muito a ver com os problemas da sua nação. E não só: enfatizou-se bastante o conhecimento da realidade local do aluno com as questões, no final de cada capítulo, sobre de onde vieram as famílias dos colegas da classe (migrações), quais os problemas ambientais do seu bairro ou município, se existem -- e onde se localizam, e porquê -- indústrias no local, como é a agricultura no município, etc.

E também se introduziu -- algo absolutamente inédito no ensino de geografia até então -- pontos de vista diferentes, até opostos, sobre um mesmo tema, para que os alunos os confrontem e procurem chegar às suas próprias conclusões: um autor/texto que apregoa a existência de uma "democracia racial" no Brasil ao lado de um outro que afirma haver racismo em nossa sociedade, um que fala em "imperialimo (ou colonialismo) interno" ou inter-regional ao lado de outro que nega que isso exista, um que critica a delimitação de "enormes" áreas territoriais para certas sociedades indígenas ao lado de outro que defende essa demarcação e explica porquê isso será bom para o país, um que defende o controle de natalidade ao lado de outro que critica essa idéia, etc. E novos temas/abordagens foram introduzidos neste manual de geografia do Brasil: uma nova e mais adequada divisão regional -- as três regiões geoeconômicas: Amazônia, Nordeste e Centro-sul -- no lugar daquelas tradicionais cinco macro-regiões do IBGE (as únicas que os manuais do período reproduziam), discussões/exposições sobre as relações de trabalho no campo e a reforma agrária, sobre domínios morfoclimáticos, sobre as relações homem/mulher, sobre as contradições e conflitos urbanos, sobre a questão ambiental no Brasil, a biodiversidade, etc.

Da mesma forma que o manual anterior -- Sociedade e espaço --, no qual este em parte se inspirou, também existe uma constante atualização e uma reformulação a cada 4 anos. Na penúltima reformulação, lançada em outubro de 2001, foram introduzidas novas propostas -- sites na internet para se pesquisar tal ou qual assunto, literatura e filmes que podem ajudar na compreensão ou no aprofundamento de algum(ns) tema(s), etc. -- e também novos temas: o Brasil frente à nova ordem mundial e à globalização, as perspectivas para o século XXI, o significado do Mercosul e os seus dilemas frente à criação da Alca, as privatizações, os alimentos transgênicos, etc.

Na nova edição, a última, de outubro de 2006, mais uma vez existem temas novos ou renovados e principalmente uma novidade pedagógica: Questões para Reflexão no início de cada capítulo para que o educando pensa antes no tema que será abordado. É um procedimento construtivista, que já adotamos na obra anterior Sociedade e Espaço - geografia geral e do Brasil, que motiva os leitores ao apresentar desafios dinâmicos antes de cada tema. Existem fotos, charges, gráficos, tabelas, mapas ou textos curtos que desafiam a inteligência do leitor, com questões que o levam a pensar nos temas que serão abordados em cada capítulo. Dessa forma, existe uma geografia do Brasil não apenas inovadora nos temas, no conteúdo e na forma de exposiçao, mas também instigadora, motivadora, que leva os educandos a se interessarem - e a discutirem - sobre os temas sócio-ambientais apresentados no livro.