Reproduzimos aqui este comentário, a nosso ver pertinente, a respeito de um pretenso livro didático de Geografia, que seria "amplamente adotado nas escolas dos Estados Unidos", no qual a Amazônia é apresentada como Área Internacional. Esse boato - ou essa construção feita por nacionalistas xenófabos (de direita ou de esquerda?, se é que isso importa) - circula na rede mundial de computadores desde pelo menos 2001. Vários spams espalharam essa página. Como já nos indagaram inúmeras vezes a respeito desse pretenso livro didático em palestras que proferimos para professores em várias cidades do Brasil, resolvemos mostrar esta suposta página 76 do livro, que circulou e ainda circula pela rede mundial de computadores. Ela é facilmente encontrável na net, em alguns sites que a usam para fins alarmistas e em outros, muito mais numerosos, que a reproduzem para mostrar a grosseira montagem. Como se vê (clique no mapa para obter uma imagem ampliada e com o texto legível), é uma construção bastante precária, com um inglês no mínimo sofrível, um texto que jamais seria redigido por um nativo desse idioma.

 

Internet espalha boato sobre internacionalização da floresta Amazônica - (In: Folha de S.Paulo, 05/06/2008)

Um spam (mensagem não solicitada) que vem entupindo as caixas de entrada dos e-mails alerta sobre um plano para transformar a Amazônia em uma reserva internacional, citando como prova um hipotético livro (An Introduction to Geography, de David Norman) adotado em escolas dos Estados Unidos, no qual a Amazônia já aparece separada do Brasil e dos demais países amazônicos.

O spam traz a "horrorizante tradução" de um trecho do livro (ou melhor, do suposto livro), segundo o qual "desde meados dos anos 80 a mais importante floresta do mundo passou a ser responsabilidade dos Estados Unidos e das Nações Unidas", já que os países que a controlavam eram "reinos da violência, do tráfego [sic] de drogas, da ignorância, e de um povo sem inteligência e primitivo".

 

 
Inglês macarrônico do spam (uma mensagem não solicitada) revela que o texto certamente não foi escrito por um norte-americano clique aqui para ampliar o mapa

 

O inglês macarrônico do spam (uma mensagem não solicitada) revela que o texto certamente não foi escrito por um norte-americano

 

Esse livro não existe nas bibliotecas norte-americanas: basta consultar o site Worldcat (www.worldcat.org), que faz uma busca simultânea em mais de 10 mil bibliotecas, para constatar que se trata de uma obra fantasma.

Todas as publicações comerciais dos EUA são registradas na Biblioteca do Congresso e tal livro não consta de seus arquivos. Tampouco pode ser encontrado em livrarias on-line como a Amazon e a Barnes&Noble.

Existem vários autores com esse nome --o mais produtivo é um paleontólogo com vários livros sobre dinossauros--, mas nenhum deles escreveu sobre geografia.

O inglês macarrônico da mensagem revela que o texto certamente não foi escrito por um norte-americano. Vários erros (padronização, grafia, concordância) sugerem que o autor da fraude é provavelmente um brasileiro com escassa fluência no idioma.

A própria montagem é tão grosseira que a página 76 do livro, onde aparece o suposto mapa (veja o quadro), fica do lado reservado às páginas ímpares.

Apesar das evidências de fraude, o e-mail se disseminou a tal ponto que chegou a ser reproduzido em um clipping distribuído pela SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência), em 2001 --o que obrigou a Embaixada do Brasil nos EUA a apontar a fraude. Apesar disso, o spam circula até hoje.